Joesley aumenta dano a Temer, mas não é crível posar de vítima

:: Kennedy Alencar em 19/06/2017 09:17 ::

A entrevista do empresário Joesley Bastista à revista “Época” tem mais peso político do que jurídico. O empresário recorreu a uma narrativa com cores fortes para desgastar o presidente Michel Temer, acusando-o de chefiar a quadrilha mais perigosa do país. Apesar disso, as acusações são uma repetição do que Joesley e outros delatores da JBS disseram à Procuradoria Geral da República.

As declarações à revista causam dano ao governo, porque ampliam o desgaste de Temer na opinião pública. Também atingem o PSDB e o PT. Joesley espalhou chumbo político, levando o presidente a divulgar uma nota dura no sábado e a dizer que processará o empresário.

Joesley se comporta na entrevista como se tivesse sido chantageado por políticos e não pudesse ter outra saída, senão pagar propina.

Mas ele mesmo disse que descobriu que eram falsas algumas ameaças de CPI e de convocação para depor em comissões do Congresso.

Havia uma simbiose entre corruptos e corruptores. Isso está muito claro na longa investigação feita pela Lava Jato. Interessou a Joesley pagar propina e fazer doações eleitorais generosas, porque isso turbinou o crescimento da sua empresa. Houve um investimento na corrupção para ganhar dinheiro. Não é crível posar de vítima dos políticos.

Exemplo: na conversa com Aécio, gravada por Joesley, o empresário joga uma isca, sugerindo o nome de Aldemir Bendine (ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras) para comandar a Vale e, assim, fazer negócios. Aécio afirmou que já tinha sido escolhido outro presidente para a companhia, mas deu corda ao empresário, sugerindo uma indicação para uma lucrativa diretoria, porque esse era o tipo de conversa que estava acostumado a ter com Joesley.

A entrevista desgasta os políticos, mas também atrai a ira da opinião pública contra Joesley, porque ele não tem nada de santo ou de vítima.

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Reação presidencial

Temer pediu à AGU (Advocacia Geral da União) para estudar medidas judiciais contra Joesley e o grupo JBS por danos à economia do país. O presidente disse que Joesley mentiu na delação e na entrevista.

Segundo ele, isso causou prejuízo econômico ao país, com impacto na Bolsa, na cotação do dólar, na expectativa futura dos juros.

O presidente disse que tomaria medidas para colocar Joesley “na cadeia”. Estava muito contrariado por ter sido acusado de chefiar a quadrilha mais perigosa do país.

Do ponto de vista político, o presidente continuou a reforçar a articulação para barrar a provável denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Temer precisa do apoio de 172 deputados. Mas isso não significa que ele tenha de obter esse suporte em votos na Câmara. Basta impedir que dois terços votem pelo prosseguimento da denúncia.

Ou seja, a ausência para dificultar 342 a favor da denúncia poderá ser um caminho, apesar de o plano A ainda ser obter um placar significativo. Mas, a depender da evolução da crise, esvaziar a votação pode ser uma das armas.

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Fatiamento de denúncia

É legítimo que a Procuradoria Geral da República tenha a estratégia jurídica que julgar mais eficiente para combater a corrupção. No entanto, parece ruim para o país um fatiamento da denúncia contra Temer, porque deve gerar mais instabilidade política e esticar a crise.

Seria mais sensato o procurador-geral da República reunir todos os elementos que julga pertinentes e apontá-los numa única denúncia.

Daria mais peso jurídico e evitaria a crítica de fatiamento como estratégia processual para desgastar ainda mais o governo. Isso só vai gerar mais uma escalada da crise. Pode ainda aumentar a solidariedade do Congresso a Temer, porque muitos políticos avaliam que amanhã estarão no lugar do presidente e poderão responder a denúncias em série.

Ouça o comentário no “Jornal da CBN”:

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