Temer não deve demitir ministros do PSDB

:: Kennedy Alencar em 18/07/2017 08:44 ::

O presidente Michel Temer dificilmente demitirá ministros do PSDB. Há pressão dos chamados partidos do Centrão da Câmara nesse sentido.

Mas o presidente avalia que seria dar uma justificativa para o rompimento com o governo. Seria um gesto que facilitaria a articulação da ala tucana que prega o desembarque.

Outro motivo é que Temer precisa de cada voto que puder conquistar no PSDB. Uma fatia do partido na Câmara, apesar de menor, pode ser decisiva para a permanência dele à frente da Presidência da República.

Na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, o relatório alternativo que negou o pedido de autorização para que o Supremo Tribunal Federal examinasse a denúncia de Janot contra Temer foi elaborado por Paulo Abi-Ackel, um deputado tucano de Minas muito próximo do senador Aécio Neves.

Ao manter tucanos no ministério, Temer reforça a ala que combate os rebeldes.

O presidente deverá usar o Ministério da Cultura e cargos de segundo escalão em poder de aliados infiéis para agradar aos partidos do centrão.

Manter ministros tucanos é também uma forma de evitar a perda de apoio empresarial. A declaração do presidente em exercício do PSDB, o senador Tasso Jereissati, dizendo que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, traria mais estabilidade ao país teve forte repercussão no empresariado, sobretudo no paulista.

O mercado financeiro já vinha dando sinais de preferência por Maia em relação a Temer, avaliando que bastaria trocar um pelo outro para manter a agenda de reformas. Não é bem assim, mas é como o mercado financeiro vê o atual cenário político.

No setor produtivo, grandes empresários passaram a aceitar a possibilidade de Maia ser colocado na Presidência após a fala de Tasso. A declaração soou como um aval do tucano, que é empresário e tem bom trânsito no setor. Romper com o PSDB poderia afastar ainda mais o empresariado do governo. Temer sabe disso. Daí a cautela.

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Dubiedade e cacife eleitoral

Recentemente, o prefeito de São Paulo, João Doria, telefonou para Temer a fim de dizer que ele e o governador Geraldo Alckmin haviam conseguido segurar o desembarque do PSDB, mas que o preço estava sendo alto do ponto de vista político.

Doria argumentou que ele e Alckmin haviam até perdido pontos numa pesquisa sobre a sucessão presidencial do ano que vem por causa do apoio ao governo. Temer respondeu que a perda de cacife dos candidatos do PSDB se devia à dubiedade do partido e não ao governo dele.

Temer tem um pouco de razão. O cacife dos candidatos tucanos já vinha caindo nas pesquisas antes da crise desencadeada pelas delações da JBS. A popularidade do governo Temer sempre foi baixa.

O PSDB paga o preço de ter feito uma radicalização no discurso político rumo à direita e perdeu eleitores para o deputado federal Jair Bolsonaro, do PSC. Essa agressividade de Doria em relação aos ex-presidentes Lula e Dilma é exemplo dessa guinada.

O próprio Aécio, antes de cair em desgraça política, havia deixado o hábito conciliador e assumido ares de guerreiro.

É um erro o PSDB atribuir a Temer as suas dificuldades. Elas são resultado de erros de cálculo e de contradições dos tucanos. O PSDB não aceitou o resultado eleitoral de 2014 e deu início a uma série de movimentos que o levou à delicada situação em que se encontra hoje.

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