Heloisa Villela: De olho nos votos da “minoria” branca, Trump faz jogo interesseiro com neonazistas que perderam a vergonha

:: Viomundo em 13/08/2017 17:18 ::

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por Heloisa Villela, de Nova York

Um carro avança em direção a um grupo de pedestres. Corpos voam. Uma mulher de 32 anos morre no local.

O veículo se choca com outros dois e em seguida arranca em marcha à ré com a frente destruída e foge.

O motorista, de 20 anos, foi preso. Em qualquer lugar do mundo a cena seria descrita, por líderes locais e internacionais, com uma única palavra: terrorismo.

O termo, usado e abusado na última década e meia, não foi pronunciado pelo presidente Donald Trump nem por seu Secretário de Justiça, Jeff Sessions.

Depois de uma manhã confusa e explosiva na Virgínia, o presidente do twitter instantâneo só deu as caras depois da uma hora da tarde: “Nós condenamos de forma contundente essa demonstração escandalosa de ódio, intolerância e violência… de vários lados. Vários lados”.

Foi o máximo que ele conseguiu dizer. Até o conhecido conservador da Flórida, senador Marco Rubio, cobrou. Disse que Trump precisa descrever o que aconteceu na Virgínia como um “ataque terrorista de um suprematista branco”.

Trump passou ao largo de uma condenação mais explícita. Ele nunca teve um cargo público antes de se tornar presidente. Mas não é bobo.

Para chegar à Casa Branca, Trump mobilizou essa base que agora aflora e teme o dia em que será minoria no país. De acordo com o censo americano, em outras três décadas, o número de brancos será menor do que o de todas as minorias somadas.

A imagem chocante de um motorista arremessando o carro de encontro a pedestres não foi suficiente para Trump alienar a base que o sustenta. Ele não denunciou os grupos de ódio que parecem estar indo à forra agora, depois de oito anos da presidência de um negro norte-americano.

Ouvi esse comentário várias vezes: “eles tiveram que engolir um negro na Casa Branca por oito anos, agora estão descontando”. O que será que Trump quis dizer quando afirmou: “isso vem acontecendo há muito tempo no nosso país. Não é Barack Obama. Não é Donald Trump. Isso vem acontecendo há muito, muito tempo”.

E a frase jogada ao vento ficou ali, sem maiores explicações.

No ano passado Trump recebeu o apoio de David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan (pasmem, ainda existe nos Estados Unidos, em 2017), e nunca veio a público repudiar o apoio. Agora, ele pediu união, amor, patriotismo.

Evitou uma crítica aberta aos suprematistas brancos. Ainda assim, David Duke, que estava em Charlottesville, botou mais lenha na fogueira com um recado claro nas mídias sociais: “Eu recomendo que você dê uma boa olhada no espelho e se lembre que foram os Brancos Americanos que te puseram na presidência e não os radicais de esquerda”.

Dois grupos se enfrentaram nas ruas de Charlottesville durante toda a manhã e Trump condenou a violência de “vários lados”. Quantos lados ele conseguiu enxergar naquele embate? A polícia seria um terceiro? Os suprematistas brancos, neonazistas e membros da Ku Klux Klan desembarcaram na cidade da Virgínia preparados. Além do uniforme militar, eles tinham até escudos improvisados, capacetes e produtos químicos engarrafados para abrir caminho na marra.

Eles prometiam unir a direita, “tomar a América de volta” e impedir que a Virgínia “nos substitua”, retirando dos espaços públicos os símbolos dos confederados.

A polícia demorou a agir. Não criou um cordão de isolamento que separasse os dois grupos como fez em maio, em outra demonstração de força da ultra direita na cidade. No sábado, eles foram semicerrados dentro do parque. Se estivessem dentro de um quadrado, três lados estavam ocupados pela polícia. Havia uma única saída. E ao deixar o parque, eles estavam em rota de colisão com o protesto antirracista que vinha em direção oposta.

A Secretaria Municipal de Segurança prometeu investigar a estratégia desastrosa empregada ali. Houve tempo de sobra para agressões até que a polícia entrasse para separar a briga.

Há dois anos a prefeitura de Charlottesville discute se deve ou não retirar de uma das praças da cidade a estátua do general Robert E. Lee, o principal general dos confederados, o lado que perdeu a Guerra Civil americana no século XIX.

Ele comandou as tropas do sul, que se recusavam a fazer parte da União e defendiam os estados de agricultura baseada no trabalho escravo. Conhecido pelas táticas agressivas que custaram muitas vidas aos confederados, Lee se recusou a manter o estado de insurreição permanente, como muitos queriam, quando perdeu a guerra. Ele se entregou e pediu a reconciliação do país. No sábado, montado no cavalo hoje verde de oxidação, ele assistiu velhas rusgas voltarem à tona e se enfrentarem no parque de onde está ameaçado ser expulso.

Esse movimento de “limpeza” histórica começou em alguns estados do sul depois que Dylan Roof entrou em uma igreja de Charleston e matou nove afro-americanos. Suprematista branco convicto, ele confessou ter planejado o ataque com o objetivo de provocar uma guerra racial. Ele foi condenado à morte mas fez um acordo com a justiça. Admitiu todos os crimes e conseguiu a prisão perpétua em troca.

A guerra que ele queria detonar vive há séculos nos porões da cultura americana. Latente, quando surge uma brecha ela vem à tona. Não é apenas Trump que precisa olhar no espelho e estudar com atenção a imagem que se reflete ali. O país se viu espelhado nas ruas de Charlottesville. E agora, América, o que fazer?

PS do Viomundo: O motorista do automóvel foi identificado como James Alex Fields Jr., de 20 anos de idade, que viajou de Ohio até a Virginia para participar do comício da extrema-direita. Ele apareceu em fotos junto a um grupo denominado Vanguarda, de bolsonazis norte-americanos. O grupo nega que ele seja filiado. A jovem morta no ataque é Heather Heyer, que trabalhava num escritório de advocacia e se juntou à coleção de movimentos que se organizam no antifa, militantes antifacistas dos Estados Unidos. Durante o fim-de-semana, milícias fortemente armadas de extrema-direita caminharam por Charlottsville sem serem importunadas (na Virginia é permitido carregar armas em público). Um perfil do twitter, @YesYoureRacist, fez um trabalho de identificação dos fascistas e conseguiu a demissão de vários deles ao informar às empresas sobre a presença deles na marcha neonazista.

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