Será que vazamentos visam a manifestação de amanhã?

:: André Singer em 25/03/2017 05:18 ::

Sou avesso a teorias conspiratórias. Parto do princípio de que processos complexos, como os que vigoram na sociedade contemporânea, são sempre resultado de múltiplos fatores. Nenhum centro consegue controlar o conjunto deles. Leia mais (03/25/2017 – 02h00)

Clique aqui para ver esta matéria na fonte original.

Convergência inesperada pode unir contrários

:: André Singer em 18/03/2017 04:12 ::

Ainda que aparentemente desligados, dois fatos recentes podem convergir mais adiante. É que tanto as manifestações contra a reforma da Previdência quanto os pedidos de inquérito enviados por Rodrigo Janot ao Supremo Tribunal Federal (STF) desembocam no Congresso. Os legisladores que decidirão sobre as aposentadorias são os mesmos que precisam de apoio popular para salvar-se das acusações em curso. Leia mais (03/18/2017 – 02h00)

Clique aqui para ver esta matéria na fonte original.

Cenário de 2018 só estabiliza com Lula

:: André Singer em 11/03/2017 05:11 ::

Parte da semana foi consumida pelo debate a respeito do que provocou a violenta retração de 2016, divulgada terça (7) pelo IBGE: -3,6% do PIB. Como a queda de 2015 havia sido -3,8% configurou-se recessão maior do que as ocorridas no início dos anos 1980 e 1990. Leia mais (03/11/2017 – 02h00)

Clique aqui para ver esta matéria na fonte original.

Quem vai sobrar depois da delação de Odebrecht?

:: André Singer em 04/03/2017 04:58 ::

Quando o sigilo for levantado, conviria ler o depoimento integral do empresário Marcelo Odebrecht ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na Quarta-feira de Cinzas juntamente com um bom perfil dos lobistas Jorge e Bruno Luz, presos em pleno sábado de Carnaval. Somadas, a longa delação do megaempreiteiro e a biografia da família cujo pai é considerado o decano do lobismo no país —atuava desde o governo Figueiredo (1979-1985)—, devem revelar o quadro mais completo de como funcionava o financiamento da grande política nas últimas quatro décadas. Leia mais (03/04/2017 – 02h00)

Clique aqui para ver esta matéria na fonte original.

Escolha para o STF revela ideologia do bloco no poder

:: André Singer em 25/02/2017 04:54 ::


A escolha e a aprovação de Alexandre de Moraes para o Supremo Tribunal Federal (STF) condensou e revelou, em duas rápidas semanas, a verdadeira natureza do grupo que tomou o poder no Brasil. Trata-se da mais aberta e nítida direita que chegou ao governo desde a ditadura militar, mesmo considerando-se o consulado Collor. As suas simpatias repressivas assustam; o seu compromisso democrático soa duvidoso.
Leia mais (02/25/2017 – 02h00)


Clique aqui para ver esta matéria na fonte original.

Queima de empregos destrói vidas – André Singer

Opinião:

Aos poucos, e se a sorte ajudar, nos aproximamos do ironicamente tão esperado fundo do poço. Dados do Ministério do Trabalho indicam uma sutil desaceleração da taxa de desemprego —que, no entanto, continua a subir— e a maioria dos analistas econômicos acredita que por volta de abril ou maio as demissões cessem. Daí para frente haveria uma (bem) lenta recuperação de vagas.

Em consequência, pode-se divisar, entre a fumaça e os escombros da batalha, o tamanho do estrago causado pelo ajuste austericida, começado por Dilma Rousseff e continuado pelo seu vice e sucessor, Michel Temer. Como se esperava, um dos setores mais atingidos pela artilharia recessiva foi o mercado formal de trabalho. Quase 3 milhões de empregos com carteira assinada foram queimados entre 2015 e 2016.

Significa dizer que cerca de 12 milhões de brasileiros, considerando-se que ao redor de cada demitido há uma família média de quatro pessoas, caíram na zona do desespero. Com o seguro-desemprego restringido, e sem a perspectiva de recuperar um salário fixo no curto ou médio prazo, aparece o palpável fantasma de ficar sem nenhuma renda para comer, vestir e morar. Em tais condições, faz-se qualquer coisa para sobreviver.

Uma das saídas é o trabalho doméstico, cujo crescimento foi detectado pelo IBGE. As diaristas, que tinham minguado no período do lulismo pleno, isto é, até o final de 2014, voltaram a aparecer. Os jardineiros, que haviam se tornado escassos, retornaram.

O vínculo doméstico é sintomático, pois as jovens trabalhadoras preferem empregar-se no setor de serviços, muitas vezes para ganhar o mesmo, mas onde tem mais perspectivas de evolução. Acabam por aceitar condições precárias, como jornadas hiperestendidas e alta rotatividade, por exemplo, em supermercados, antes de ceder à labuta residencial.

No entanto, o comércio fechou cerca de 200 mil vagas só no ano passado, obrigando as moças a optar pelos caminhos antigos. Convém lembrar que parte delas, graças ao Prouni e ao Fies, chegaram à universidade no período anterior. Não deve ser raro, em decorrência, encontrar diaristas universitárias por aí.

Quando a última porta se fecha, pois a crise atinge também a classe média, restam alternativas que afetam o indivíduo de maneira profunda, como a prostituição ou a criminalidade. São conhecidas as reportagens que dão conta do aumento do número de garotas de programa em função do desemprego. Quanto à violência, é difícil medir, pois virou endêmica no Brasil. Quantas vidas foram e ainda serão desperdiçadas nesse moinho destrutivo e desumano?

*

Paro por duas semanas. Volto em 18/2.


Leia mais…

Postura de Teori fica como principal herança – André Singer

Opinião:

Leio no resumo biográfico preparado por Frederico Vasconcelos sobre Teori Zavascki a frase colocada no título desta coluna. Foi dita pelo ex-ministro a jornalistas, explicando por que preferia manter-se reservado. A meu ver, sintetiza a principal lição deixada pelo jurista morto na quinta (19).

Uma democracia vive do equilíbrio de muitos poderes. Tem mais chance de prosperar quando os atores que os exercem compreendem a fundo o papel do qual estão incumbidos. O distanciamento mostra que Teori sabia o que estava fazendo.

O juiz, para cumprir de maneira adequada a função que lhe foi atribuída pela sociedade, precisa manter a independência. Caso o magistrado esteja, ou pareça estar, envolvido com uma das partes, compromete o veredito que vai proferir. A ideia é óbvia, mas, na prática, difícil de ser sustentada, pois implica controlar a enorme vaidade que a todos consome.

Veja-se, por exemplo, as atuações do ex-ministro Joaquim Barbosa, relator da Ação Penal 470, e do responsável pela Lava Jato em primeira instância, Sergio Moro. No primeiro caso, repetidas manifestações intempestivas no plenário do tribunal, que produziam forte cobertura de imprensa, tiraram-lhe a aura de isenção necessária para conduzir o delicado processo que o sorteio lhe atribuiu. No segundo, ações públicas contra o PT, uma delas admoestada pelo próprio Teori (divulgação do diálogo Dilma-Lula), sem falar na repetida exposição midiática, conspurcaram a imagem de neutralidade técnica que possuía no princípio da operação.

Já Teori agiu em silêncio. Relator da Lava Jato, deu raras declarações e fez poucas aparições em público. Badalação, zero. Imagine-se quanta solidão, e mesmo angústia, nas horas difíceis, deve ter passado. Ganhou, em troca, a medalha representada pela curta frase de Romero Jucá a Sérgio Machado em março passado: “É um cara fechado”, para significar que Zavascki era inabordável. O que de melhor se pode esperar de um juiz?

Não significa que Teori estivesse alheio à política. Basta recordar a decisão tomada em maio de 2016 de suspender o mandato de Eduardo Cunha, tirando-o da presidência da Câmara, sem que houvesse precedente constitucional para tanto. Em novembro de 2015, mandou prender Delcídio do Amaral, apesar deste possuir mandato de senador. A delação de Delcídio desencadeou a avalanche que terminaria no impeachment.

Não obstante, Zavascki recebe agora homenagens de todo o espectro partidário, inclusive de Dilma e do PT. O consenso em torno dele, um dos raros acordos que ainda estavam em pé neste país polarizado, decorria da sua imagem de independência. Resta exigir que o próximo relator herde, além da responsabilidade, a postura.


Leia mais…

Opinião: O autoritarismo está de novo no ar – André Singer

As gerações que viveram o golpe de 1964 e a longa transição —a qual demorou 14 anos para terminar por completo (1974-1988)— não se prepararam para enfrentar nova jornada de luta em favor do regime democrático no Brasil. Mas parece que uma inesperada combinação de fatores vai recolocar o problema da liberdade, antes que as questões sociais sejam minimamente equacionadas como se almejava.

Há indícios que os próximos dois anos irão exigir da sociedade civil brasileira um máximo de discernimento e unidade para evitar a volta disfarçada de desvios autoritários. No domingo passado, a ombudsman Paula Cesarino lembrou, a propósito da naturalização dos massacres em presídios nacionais, que a Folha se distinguia, nos anos 1980, “pela defesa dos direitos civis e o olhar severo para as suas violações”.

Embora não seja fácil, uma vez que o inimigo hoje não se encontra explícito e unificado como se dava na ditadura militar, torna-se necessário reeditar aquele espírito, se quisermos preservar o que foi conquistado. O país continua a ser profundamente desigual, mas construiu ampla liberdade de opinião e de organização, agora ameaçadas.

É que surgiu por aqui uma base social para experimentos antidemocráticos de variado tipo, como, aliás, tem acontecido também nas nações ricas, conforme mostra importante artigo de Robert Foa e Yascha Mounk (“Journal of Democracy”, julho de 2016).

Refiro-me a camadas da população que aplaudem ações policiais, como intervir em uma reunião sindical no ABC, porque nela se “discutia política”, em uma peça de teatro em Santos, porque continha críticas à polícia, ou na Escola Nacional do MST, a pretexto de executar o mandado de prisão de alguém que não estava lá.

Ainda que siga ausente do horizonte visível qualquer ação das Forças Armadas, a atual dissolução dos partidos faz prever um vácuo no qual tais mecanismos de exceção, como vem sendo chamados, podem se tornar a regra.

A eleição de 2018, se o sistema partidário erigido desde 1989 continuar a ser implodido pela Lava Jato, o que soa quase inevitável, tem tudo para se tornar palco de candidatos tipo “lei e ordem”.

Para completar o quadro pessimista, o ambiente mundial é de reversão democrática. O relatório divulgado anteontem pela Human Rights Watch indica que a ascensão de Donald Trump nos EUA, e de uma série de líderes mal denominados populistas ao redor do planeta, constituem profunda ameaça aos direitos humanos. Na realidade, o conceito mais adequado para designar o fenômeno em curso é autoritarismo e não populismo, o qual pode conviver com formas democráticas.

Mas o que importa é a coisa, e não o nome. Hora de agir.


Fonte: Opinião

Opinião: Notícias da casa dos mortos não obtêm respostas adequadas – André Singer

Em janeiro de 2014, período em que os acontecimentos escasseiam, detentos do Maranhão gravaram vídeo com decapitações. Elas circularam o país todo. Horrorizado, o Brasil passou algumas semanas discutindo o que fazer a respeito. Em seguida, outros temas se superpuseram (corrupção, Copa, eleições) e a vida seguiu.

No primeiro dia deste ano, a nação foi confrontada de novo com a trágica realidade dos presídios. Presos de Manaus (AM) ligados a uma facção criminosa massacraram, decapitaram e esquartejaram 56 colegas. Deixaram que a ação fosse filmada pelas câmaras do circuito interno.

Nesta sexta (6), 31 foram degolados e filmados numa colônia prisional em Roraima. Nos três casos havia, portanto, intenção de avisar —numa mistura de ameaça e pedido de socorro— o que ocorre no subsolo da sociedade.

Outra vez, é claro, o assunto toma conta do noticiário. Indignação, análises, estatísticas, cálculo político, debates. Em breve acontecimentos mais palatáveis —porque menos crus— irão se apresentar, e os habitantes da superfície, este colunista incluído, irão esquecer o tema, até que o próximo reality show penitenciário nos chacoalhe.

Entre um e outro choque, nada efetivo será feito. Por quê? Porque o país se encontra em absoluto desacordo sobre como proceder em relação ao problema da criminalidade.

Dois exemplos. Antes mesmo da plena redemocratização, lá se vão 35 anos, o governo estadual liderado por Franco Montoro em São Paulo tentou implementar uma política de direitos humanos na área de segurança. Teve que recuar diante do desgaste que sofreu. As pesquisas mostram que há vasto apoio à pena de morte entre os cidadãos, e a preservação dos direitos daqueles que se encontram detidos não é nada popular.

Até onde tenho conhecimento, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) foram a mais importante iniciativa no plano nacional para enfrentar a violência. Embora, na prática, muitas contradições tenham acompanhado a implantação do projeto, sua concepção era simples: o Estado só retomaria o controle dos territórios tomados pelo crime organizado se, junto com a polícia, houvesse forte investimento social.

Moradia, mobilidade, saúde, educação e lazer precisariam vir junto com a presença de uma força armada de controle. Agora, diante dos vinte anos de limitação do gasto público, tal visão se torna, outra vez, utopia.

Enquanto não formar amplo consenso civilizatório, a casa dos mortos continuará a enviar sinais, intermitentes e nítidos, da barbárie brasileira profunda. Sem respostas vindas de cima. Não é casual o presidente da República ter chamado a chacina amazônica de acidente.


Fonte: Opinião

Opinião: Fica, 2016 – André Singer

Não adianta apagar o ano e rumar o mais rápido possível para 2017, como se fugir para a frente ajudasse em algo. Ao contrário, é preciso fixar na memória que em 2016, numa grave decisão contrária à democracia brasileira, o Congresso Nacional derrubou a presidente da República legitimamente eleita e que não cometeu crime de responsabilidade.

Que profundas consequências advirão do golpe parlamentar ainda não podemos saber, mas devemos, desde já, investigar como e por que ele se deu. Lembro que 2016 começou com o impeachment politicamente morto. Ficara claro que Eduardo Cunha dera curso ao processo porque o PT decidira votar contra ele na Comissão de Ética da Câmara dos Deputados.

Em consequência, foram um fiasco as manifestações de rua em dezembro de 2015 pela derrubada de Dilma. De que modo foi revertido o quadro? Quais foram os agentes e dirigentes da reversão? Que meios utilizaram?

O grosso das operações golpistas ocorreu no primeiro semestre. Na prática, a situação se resolveu entre 23 de fevereiro, quando foi preso o marqueteiro João Santana, e 17 de abril, a data verdadeiramente decisiva, em que o plenário da Câmara aprovou, por 367 a 137, a continuidade do julgamento contra Rousseff. Os acontecimentos posteriores constituíram apenas epílogo até o fatídico 31 de agosto em que ela caiu.

Se ajustarmos ainda mais os instrumentos de observação, veremos que o processo se concentrou nos 20 dias que mediaram a detenção do já citado propagandista das campanhas do PT e a manifestação pró-impeachment do domingo 13 de março. Tal como a Marcha com Deus pela Liberdade, em 19 de março de 1964, sacramentou a queda de João Goulart, a multidão (500 mil pessoas, segundo o Datafolha ) reunida, novamente em São Paulo, após meio século, determinou o fim do ciclo lulista. A manchete da Folha, em duas linhas e toda em caixa alta, feita para registrar evento maior, deixava clara a importância do acontecido: “Ato anti-Dilma é o maior da história”.

O que produziu a mudança entre o rotundo fracasso das manifestações de dezembro de 2015 e o absoluto sucesso de março de 2016? Minha hipótese reside na combinação entre três fatos produzidos pela Operação Lava Jato e o quadro de emergência comunicacional criado ao redor deles: a prisão de Santana (23/2), a delação de Delcídio do Amaral (3/3) e a condução coercitiva de Lula (4/3).

O espaço me impede de detalhar aqui os nexos internos que ligam esses acontecimentos e o tratamento dado a eles pelos meios de comunicação, sobretudo os eletrônicos. De todo modo, historiadores ainda discutirão muito a respeito. Fica aqui a percepção telegráfica de uma testemunha interessada.


Fonte: Opinião