A pobreza e o cérebro das crianças

:: Drauzio Varella em 18/03/2017 04:12 ::

Viver na pobreza coloca em risco o desenvolvimento do cérebro das crianças. Mais tarde, elas levarão desvantagem nos testes de quociente intelectual, terão mais dificuldade de intelecção de textos, de concentração e de autocontrole. Leia mais (03/18/2017 – 02h18)

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Disseminação da obesidade contribuiu para o aumento dos casos de câncer

:: Drauzio Varella em 03/03/2017 19:48 ::

A suspeita de que a obesidade aumenta o risco de câncer vem de longe. A disseminação da epidemia de obesidade ocorrida nos últimos 20 anos contribuiu para o aumento atual do número de casos de tumores malignos. Leia mais (03/03/2017 – 02h00)

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Poluição e demência

:: Drauzio Varella em 18/02/2017 05:14 ::


Quanto mais velhos ficamos, maior o risco de declínio cognitivo. A perda progressiva de memória pode chegar ao ponto de não reconhecermos pessoas queridas, a casa em que vivemos e o mundo que nos cerca e de perdermos a noção de quem somos, incapacidades que nos roubam a condição humana.
Leia mais (02/18/2017 – 02h14)


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Glúten, lactose e outras modas – Drauzio Varella

Opinião:

Nunca houve tantos modismos na dieta. Dieta sem glúten, sem lactose, sem gordura, sem carboidratos, sem nada que venha dos animais e até dietas sem alimentos que contenham DNA (pedras, talvez).

A história de nossos antepassados é a da miséria. Dos 6 milhões de anos de nossa espécie, pelo menos 99,9% do tempo caçávamos, pescávamos, coletávamos frutos e raízes e disputávamos carcaças de animais com outros carnívoros famintos.

Há insignificantes 10 mil anos, o surgimento da agricultura criou a oportunidade de abandonarmos a vida nômade e armazenarmos víveres para a época das vacas magras.

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Prosopagnosia, a condição que impede de reconhecer rostos – Drauzio Varella

Opinião:

Líbero de 21.jan.2017
Líbero de 21.jan.2017

É muito chato. Você olha a cara da pessoa, sabe quem é, mas não lembra o nome de jeito nenhum.

O constrangimento se deve ao fato de que a área cerebral envolvida no reconhecimento de faces é separada daquela responsável pelo arquivamento de nomes próprios.

Somos bons reconhecedores de fisionomias porque essa habilidade foi essencial à sobrevivência. Das cavernas aos dias nas ruas de São Paulo, perceber se quem vem em nossa direção é amigo ou inimigo valeu muito mais do que saber seu nome.

Essa necessidade foi tão premente que, na seleção natural de nossos ancestrais, levaram vantagem aqueles com uma área do cérebro especializada no reconhecimento de faces: o giro fusiforme.

No início dos anos 2000, o grupo de Kalanit Gril-Spector, da Universidade Stanford, observou que diversas partes do córtex visual (região responsável pelo controle da visão) das crianças se modificavam com a idade. Entre elas estava o giro fusiforme.

O desenvolvimento recente dos aparelhos de obtenção de imagens por ressonância magnética quantitativa (qMRI) tornou possível estimar o volume que as células ocupam em determinado tecido.

Por meio dessa tecnologia, o grupo de Stanford avaliou os volumes do giro fusiforme e de uma área situada a dois centímetros de distância: o sulco colateral, envolvido na identificação de lugares e localizações.

Foram incluídos no estudo 22 crianças de cinco a 12 anos, e 25 adultos com 22 a 28 anos. O experimento consistiu em colocar os participantes para observar separadamente imagens de faces e de lugares, enquanto a ressonância calculava o volume de neurônios existentes em ambos os sulcos.

Não houve diferenças no volume de tecido existente no sulco colateral de crianças ou adultos enquanto se detinham nas imagens de lugares. Ao contrário, ao olhar para as faces a ressonância mostrou que os adultos tinham sulcos fusiformes com volume 12% maior do que as crianças, em média.

Para confirmar se o aumento de volume do sulco fusiforme nos adultos estaria associado à maior facilidade para identificar fisionomias, os participantes foram postos diante da tela de um computador que exibia fotografias de rostos em três ângulos diferentes. Em seguida, precisavam reconhecê-los num painel que mostrava rostos parecidos.

Aqueles com sulcos fusiformes mais volumosos eram mais eficientes no reconhecimento, de fato.

Como o número de neurônios pouco varia do nascimento à morte, a explicação para esse aumento de volume do sulco fusiforme estaria relacionada com o aumento do número das conexões através das quais os neurônios enviam sinais uns para os outros (sinapses). Na analogia dos autores: o número de árvores na floresta permaneceria o mesmo, mas os galhos se tornariam mais densos e complexos.

Recém-publicados na revista “Science”, esses achados surpreendem porque demonstram que essa região do cérebro continua a se desenvolver da infância à vida adulta, enquanto a apenas dois centímetros de distância a área encarregada de identificar lugares permanece inalterada.

O reconhecimento imediato de rostos e expressões faciais permitiu que nossos ancestrais decidissem num relance se deviam correr, lutar ou se aproximar, discernimento crucial à vida em comunidades sociais com maior número de indivíduos.

Na infância, temos poucas fisionomias a conhecer, as pessoas que nos cercam são nossos pais, parentes e vizinhos. À medida que nos tornamos adultos, no entanto, o contato com gente estranha cresce exponencialmente e exige circuitos mais complexos de neurônios.

Comparado com outros tipos de informação visual, o reconhecimento de faces requer processamento mais elaborado, uma vez que elas muitas vezes diferem umas das outras em apenas alguns traços.

Decifrar os segredos das conexões no sulco fusiforme permitirá entender os casos de prosopagnosia congênita ou causada por pequenos derrames cerebrais que lesam os neurônios do sulco fusiformes.

Essas pessoas são incapazes de reconhecer parcial ou totalmente o rosto dos amigos, dos pais ou dos próprios filhos, mas mantêm preservada a capacidade de memorizar seus nomes e demais características individuais. Cerca de 2% da população sofrem desse transtorno em algum grau.


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Opinião: Mal posso acreditar que as festas acabaram – Drauzio Varella

As festas acabaram, mal posso acreditar. Essa época do ano não é fácil para mim.

Fico agoniado com a chegada de dezembro. Nem terminou o mês anterior, as lojas e os shoppings já se engalanam com árvores de plástico, abarrotadas de bolas pendentes sem o menor compromisso com a harmonia das cores, laços de fita reluzentes de purpurina enrolados em guirlandas de flores artificiais e, para completar, a presença sorridente de Papai Noel.

Embora reconheça que o bom velhinho encanta o imaginário infantil e reforça o orçamento doméstico de alguns senhores com excesso de peso, não consigo compreender como um ser importado das catacumbas do inverno no hemisfério norte, com gorro na cabeça, barba postiça, botas e roupa abafada consegue sobreviver nestas paragens, por tantas décadas.

E as renas e o trenó? E as chaminés e os flocos de algodão que imitam neve? Do ponto de vista estético, convenhamos que as imagens utilizadas para criar o clima de Natal, além de impróprias para os trópicos, são cafonas, sobretudo.

A aproximação do dia 25 provoca um frenesi incontrolável na população. O nascimento do filho de Deus no cestinho de palha na manjedoura é comemorado com uma fúria consumista que toma conta do mundo: há que comprar presentes para as crianças, pais, mães e a parentalha toda.

Nos telejornais, as imagens das multidões que abrem caminho entre sacolas, embrulhos e gente suada que mal consegue se mexer na 25 de Março são as expressões mais vivas do chamado espírito natalino.

Nas famílias com algum poder aquisitivo as crianças recebem tantos presentes que ficam muito mais excitadas em abrir os pacotes do que em olhar o conteúdo.

As provações mais cruéis, no entanto, são impostas pelo trânsito e o calor que se agrava a cada ano. Ficar preso nos engarrafamentos em temperaturas acima de 30ºC, numa cidade emparedada como São Paulo, é experimentar a sensação de estar num crematório. Depois de uma hora nesse martírio, o cidadão conclui que o inferno talvez não seja insuportável, como dizem.

Calor assim, não é para gente civilizada. Nessas horas sufocantes, meu único consolo é pensar na infelicidade dos Papais Noéis espalhados pelas lojas do país inteiro, vestindo roupas de tecido sintético, tirando foto com as criancinhas no colo e sorrindo com bondade no meio da barba branca.

A despeito da crise financeira, os bares são tomados por hordas ruidosas que avançam sobre as porções de fritas, calabresa e provolone espalhadas entre centenas de garrafas de cerveja. É o pessoal das firmas. Inebriados pelo álcool, não se cansam de abraçar, desejar feliz Natal e jurar amizade eterna a colegas que talvez odeiem. Sentar nas imediações de uma mesa dessas é um convite ao mutismo, um atentado contra a audição humana.

Para quem o trabalho não dá trégua, como livrar-se dos convites para almoços, jantares e as reuniões de congraçamento? Se você aceita, vai comer e beber mais do que devia, tirar fotos e aguentar mais gente chata do que gostaria, caso contrário, dirão que você é metido a besta.

As festividades de Natal contradizem o dito popular: “não há mal que sempre dure”. Basta ficarmos livres delas, surge o tormento do Ano-Novo.

A aproximação da última noite do ano provoca uma neurose de movimento que deixa as pessoas desesperadas para sair do local em que se encontram. As pressões familiares para viajar ficam insuportáveis; impossível resistir. Conciliar no seio da família os interesses de cada um exige habilidade circense.

Passagens e hotéis a preços abusivos, carros cheios de crianças em estradas que parecem pátios de estacionamento, praias sem espaço para uma esteira, filas em padarias e supermercados, duas horas de espera por um filé com fritas no restaurante, cerveja quente, falta de água, não há tormento capaz de roubar a esperança da felicidade plena que chegará pontualmente à meia-noite do dia 31.

Na manhã seguinte, lixo e garrafas nas ruas e nas praias, sede insaciável, dor de cabeça e os preparativos para a viagem de volta.

Acabou, caro leitor, finalmente. Só não digo graças a Deus, porque não acho que Ele tenha alguma coisa a ver com isso.


Fonte: Opinião

Opinião: Não é que o exercício faça bem, a vida sedentária é que faz mal ao corpo – Drauzio Varella

2016 foi um ano difícil. Não digo apenas pelo caos político e a pior crise econômica de todos os tempos, mas por mim.

Corro maratonas há 23 anos. Acordar mal-humorado às 5h, vestir o calção e calçar o tênis, resignado, é parte de minha rotina como examinar doentes ou tomar banho.

Não o faço por apego à ideia de que assim viverei mais tempo; nem mesmo sei se percorrer distâncias tão longas é saudável. Nas provas, lá pelos 35 km, a expressão facial de meus companheiros de infortúnio é miserável, chego a duvidar que tamanho esforço seja bom para o corpo humano.

Ilustração Drauzio Varella de 24.dez.2016

Nesses momentos, procuro me excluir dessa massa de mulheres e homens destruídos pelo cansaço da prova, acho que não estou mal como eles e que resistirei à vontade de chorar de dor nas pernas.

Fico em dúvida, no entanto, quando percebo neles uma expressão de pesar ao olhar para mim. Pior ainda quando, ao ultrapassar, me perguntam: “O senhor está bem?” Senhor é a senhora sua mãe, tenho ímpetos de responder.

Quando completei 70 anos, enfrentei uma crise nada existencial: quantas maratonas ainda serei capaz de completar?

Decidi então, correr de três a quatro por ano, resolução que me obrigou a manter a rotina de treinamentos intensivos que tortura todo corredor forçado a sair da cama antes de o dia clarear.

Quando você, leitor, ouvir alguém que se gaba de acordar louco para fazer exercícios, não fique complexado: é mentira. Como eu sei? Se existisse tal disposição eu a teria sentido pelo menos uma vez nos últimos 23 anos. Para mim, levantar da cama e começar a correr sempre foi sacrifício; todas as vezes, sem uma exceção sequer.

A disciplina com os treinamentos deu resultado. Em 2013, fui o primeiro colocado na faixa acima de 65 anos na maratona do Rio e na de Buenos Aires, com tempos que me classificaram para a maratona de Boston de 2014.

São seis as maratonas mais importantes do mundo: Nova York, Chicago, Londres, Berlim, Tóquio e Boston. Dessas seis “major marathons”, Boston é a mais elitista, a única que exige o pré-requisito de haver corrido uma maratona internacional, nos 12 meses anteriores, num tempo mínimo que varia com a faixa etária.

Nas rodas de maratonistas –mulheres e homens que falam de corridas o tempo inteiro–, contar que já participou de Boston provoca interjeições de admiração. É o sonho de todos.

Corri a de 2014 sob a vigilância de um policial armado a cada cem metros e dos helicópteros em voos rasantes, mobilizados por causa do ataque terrorista do ano anterior. Em 2015, no auge do preparo físico, fui selecionado outra vez.

Na metade da prova, senti um choque na planta do pé esquerdo, sintoma que aparecia de vez em quando nos treinos mais longos. Cem metros à frente, novo choque, seguido de outros, cada vez mais frequentes e intensos, que anestesiaram o terceiro e o quarto dedo. A partir do 30º quilômetro foi um martírio, era como se milhares de formigas alvoraçadas me ferroassem a planta e os dedos do pé.

O bom senso aconselharia a abandonar a prova, mas sensatez não é o forte das pessoas que correm 42 km. Quando cruzei a linha de chegada, meu pé esquerdo parecia pertencer a outra pessoa.

Paguei caro a teimosia; estava com um tipo de fibrose num dos nervos do pé, que me deixou dez meses quase sem correr. Depois de várias palmilhas e outras tentativas infrutíferas, acabei operado em julho deste ano.

Três meses mais tarde, fui voltando devagar. A inatividade trouxe dois quilos a mais, roubou parte do meu fôlego, da resistência, da disposição para o trabalho e do bom humor, estragos reparados assim que comecei a correr.

Estou longe da melhor forma física, mas a diferença em relação ao período inativo é abissal. Não me refiro somente à sensação de bem-estar que os músculos cansados proporcionam, mas ao impacto psicológico. Além de rebaixar os níveis de felicidade, a inatividade veio acompanhada de um certo pessimismo diante dos problemas pessoais e dos desafios que a vida no país impõe neste momento.

O objetivo da última coluna deste ano, caríssimo leitor, é convencê-lo de que passar os dias sentado é muito ruim. Não é que o exercício faça bem, a vida sedentária é que faz mal ao corpo e ao espírito.


Fonte: Opinião

Opinião: Nas faculdades de medicina o preço dos tratamentos é ignorado – Drauzio Varella

É nababesco o desperdício de exames no Brasil. No consultório, canso de ouvir a frase: “Doutor, já que vou colher sangue, pede todos os exames, tenho plano de saúde”. Nos atendimentos na Penitenciária Feminina de São Paulo, a mesma solicitação, com a justificativa: “Tenho direito, é o SUS que paga”.

Fico impressionado com o número de exames inúteis que os pacientes trazem nas consultas. Chegam com sacolas abarrotadas de radiografias, tomografias computadorizadas, ressonâncias magnéticas e uma infinidade de provas laboratoriais que pouco ou nada contribuíram para ajudá-los.

Num dos grandes laboratórios da cidade, mais de 90% dos resultados caem dentro da faixa de normalidade. Numa das operadoras da Saúde Suplementar, pelo menos um terço das imagens realizadas junta pó nas prateleiras, sem que ninguém se dê ao trabalho de retirá-las.

Ilustração de Líbero para coluna de Drauzio do dia 26 de novembro

São múltiplas as causas dessas distorções. Nas consultas-relâmpago em ambulatórios do serviço público e dos convênios, os médicos se defendem pedindo exames que poderiam ser evitados caso dispusessem de mais tempo para ouvir as queixas, o histórico da doença e examinar os pacientes.

Para solicitar ultrassom ou tomografia para alguém que se queixa de dores abdominais, basta preencher o pedido. Dá menos trabalho do que avaliar as características e a intensidade da dor, os fatores de melhora e piora, e palpar o abdômen com atenção.

Como regra, o paciente sai da consulta confiante de que as imagens revelarão o que se passa no interior de seu organismo com muito mais precisão do que o médico seria capaz de fazê-lo.

O problema é que muitas vezes o exame será marcado para semanas ou meses mais tarde, porque os serviços de imagem ficam sobrecarregados com o excesso de demanda. A demora prejudicará sobretudo aqueles em que há urgência para chegar ao diagnóstico, deixados para trás pela enxurrada de pedidos desnecessários.

As operadoras de saúde, que hoje se queixam da infinidade de exames subsidiários que encarecem as contas a pagar, esquecem que até há pouco faziam comerciais na TV que mostravam resgates por helicóptero e exibiam aparelhos de ressonância para convencer os usuários de que ofereciam serviços de qualidade.

Nós, médicos, colaboramos decisivamente para aumentar o custo da medicina: é de nossos receituários que partem as solicitações. Fazemos a vontade dos que nos pedem “todos os exames”, pedimos provas laboratoriais sem pensar na relevância para o caso e nos damos ao luxo de solicitar exames e prescrever medicamentos sem ter noção de quanto custam.

Nas faculdades de medicina ninguém fala de dinheiro. Os estudantes não recebem noções elementares de economia e o preço dos tratamentos é ignorado como se vivêssemos em outro planeta.

Nos hospitais-escola, o descompromisso com a realidade econômica é universal. Com o argumento de que os internos e residentes precisam aprender, ficam justificadas as imagens mais exóticas e a repetição diária de dosagens de íons, provas de função renal e hepática, hemogramas, glicemias e o que mais passar pela cabeça dos plantonistas das UTIs e das unidades semi-intensivas.

É preciso entender o óbvio: os recursos públicos destinados à saúde são insuficientes. Eles não vêm do governo, saem dos impostos pagos por nós. Cada vez que somos atendidos pelo SUS, fazemos uso de uma parte do dinheiro que é de todos, e se o gasto for exagerado muitos ficarão em desvantagem. É bem provável que sejam os mais necessitados.

Nos planos de saúde acontece o mesmo, com uma diferença: o preço da mensalidade aumenta para todos. É simples assim. Hoje, os gastos com saúde das empresas constituem a segunda despesa mais alta do orçamento anual, só perdem para a folha de pagamento.

O SUS e a Saúde Suplementar estão diante do mesmo desafio: como reduzir os custos. Sem fazê-lo, ambos sistemas se tornarão inviáveis antes do que imaginamos.

A viabilidade do SUS e da Saúde Suplementar não será alcançada por meio de ideologias, mas com medidas práticas que reduzam os custos da assistência médica e com intervenções preventivas para evitar que as pessoas fiquem doentes.


Fonte: Opinião

Opinião: Infecção de mosquitos por bactérias é estratégia eficaz para conter dengue – Drauzio Varella

A mais promissora das estratégias de combate ao Aedes aegypti é uma bactéria sexualmente transmissível.

Wolbachia é uma bactéria que infecta cerca de 60% das espécies de mosquito existentes no mundo, sem ser transmitida para os vertebrados. Infelizmente, na natureza ela não infecta o Aedes aegypti, transmissor de dengue, chikungunya, zika e outras viroses.

Digo infelizmente porque, no final da década de 90, Scott O’Neill e um grupo de microbiologistas da Universidade Monash em Melbourne, na Austrália, descobriram que a infecção por Wolbachia interfere com a fertilidade do Aedes e com o sexo de seus descendentes, além de bloquear a reprodução de vírus no organismo do mosquito.

Num trabalho de campo conduzido em 2011, o grupo de O’Neill libertou numa cidade da Austrália dezenas de milhares de Aedes aegypti infectados em laboratório pela Wolbachia. Em cinco semanas, 90% dos Aedes selvagens haviam contraído a bactéria. Testes na Indonésia e no Vietnã apresentaram resultados semelhantes.

Ilustração de Líbero para coluna de Drauzio do dia 12 de novembro de 2016

A capacidade da Wolbachia ser transmitida de um mosquito portador da bactéria para outro, entretanto, não prova definitivamente que essa intervenção reduz a incidência de dengue, chikungunya e zika em humanos, mas uma pesquisa com esse objetivo foi iniciada em Yogyakarta, na Indonésia.

O Programa de Eliminação da Dengue vai conduzir testes semelhantes no Rio de Janeiro e em Medellín, na Colômbia. A libertação de mosquitos infectados cobrirá uma área em que vivem 2,5 milhões de pessoas em cada cidade.

Ensaios-pilotos com mosquitos infectados já foram realizados em duas comunidades do Rio de Janeiro, em 2014, e nos subúrbios de Medellín, em 2015. A soltura em grande escala, no entanto, só se tornou possível agora graças à doação de US$ 18 milhões provenientes da Fundação Bill and Melinda Gates, do Welcome Trust da Inglaterra e dos governos inglês e americano. Ao Brasil caberá o aporte de mais US$ 3,7 milhões.

O plano é soltar nas duas cidades ondas com centenas de milhares de mosquitos infectados, estudar os índices de transmissão da bactéria para as populações selvagens e avaliar o impacto na incidência de dengue, zika e chikungunya na população.

Outros cientistas realizam investigações similares. Em Cingapura está para ser iniciado um estudo com Aedes machos infectados com uma cepa de Wolbachia que torna os descendentes estéreis. Uma empresa americana de biotecnologia submeteu à aprovação dos órgãos competentes uma estratégia semelhante para combater o Aedes albopictus, o mosquito-tigre, que também transmite dengue e chikungunya.

Em pesquisas de larga escala conduzidas em Guangzhou, na China, os cientistas têm libertado semanalmente milhões de Aedes albopictus infectados. Estudos como esse são realizados na Polinésia Francesa.

As Wolbachias se disseminam facilmente entre populações de mosquitos selvagens. No entanto, provar que tal habilidade protege contra a dengue e demais doenças transmitidas pelo Aedes é condição absolutamente necessária para o emprego dessa tecnologia.

A intervenção precisa demonstrar que é custo-eficaz e duradoura. Será que ainda funcionará daqui a dez ou 20 anos?

Outro desafio dos testes no Rio e em Medellín é o tamanho das duas cidades. Como os mosquitos infectados se comportarão nas áreas densamente povoadas das favelas?

Além das dificuldades científicas, é preciso conseguir apoio da população, para deixar claro que o risco de transmissão humana da Wolbachia é zero, porque a bactéria é incapaz de sobreviver no organismo humano.

A experiência com os alimentos transgênicos e com outras tecnologias recentes, entretanto, mostra que das trevas podem emergir vozes dispostas a predispor as comunidades contra mosquitos infectados em laboratório.

A infecção de mosquitos Aedes pela Wolbachia é a estratégia com mais chances de diminuir o número de casos de dengue, chikungunya e zika, doenças que causam sofrimento e morte, especialmente entre os brasileiros mais pobres.

Philip McCall, entomologista que estuda o controle de mosquitos na Escola de Medicina Tropical de Liverpool, no Reino Unido, considera essa a descoberta mais importante desde o inseticida DDT.


Fonte: Opinião

Opinião: Aluno de medicina suspenso por estupro na USP não terá registro de médico

O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) decidiu não conceder o registro de médico ao aluno da USP que teria estuprado pelo menos três meninas. Possível colação de grau de Daniel Tarciso teve grande repercussão na última semana e até Drauzio Varella comentou o caso

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Daniel Tarciso da Silva Cardoso, estudante de medicina da USP (Imagem: Pragmatismo Político)

O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) decidiu não conceder o registro de médico ao aluno da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) acusado de estupro, até que seja feita uma análise jurídica. Daniel Tarciso da Silva Cardoso responde a processo judicial por violentar uma estudante de medicina em uma festa 2012. A vítima afirma que estava dopada quando foi estuprada.

Depois de uma sindicância, a USP puniu o aluno com uma suspensão de um ano e meio. Passada a suspensão, o estudante, que é ex-policial militar e tem 35 anos, fez as provas e completou todos os créditos necessários para a conclusão do curso. Daniel ainda não chegou a solicitar ao Cremesp o seu registro, o que só poderá ser feito após ele efetivamente colar grau.

A Faculdade de Medicina da USP informou, em nota, que “o caso está em análise jurídica pela Universidade de São Paulo para verificar se existe a obrigatoriedade de conceder a colação de grau ao aluno, após ele ter cumprido integralmente a suspensão que lhe foi imposta. Vale ressaltar, ainda, que o caso segue na Justiça“.

Em deliberação plenária divulgada ontem (9), o Cremesp decidiu que a emissão do registro para Cardoso está suspensa até a análise os procedimentos administrativos aos quais ele foi submetido. Após a documentação ser avaliada pelo departamento jurídico do conselho, haverá uma nova reunião plenária para avaliar o caso.

Saiba mais: O desabafo de Drauzio Varella sobre o estupro na USP

Para o conselho, caso seja comprovado o crime, o acusado não poderá exercer a profissão. “Um cidadão que, durante a faculdade de Medicina, é formalmente acusado de estupro por colegas de graduação – se comprovada sua conduta –, não pode ter o direito de exercer esta sagrada profissão, ligada, diretamente, à vida e à dignidade”, ressalta o comunicado da entidade.

Defesa da sociedade

A decisão dos conselheiros se baseou na defesa da sociedade. Apesar de respeitar a presunção de inocência do acusado, a plenária deliberou no sentido de que os interesses coletivos se sobrepõem aos individuais. Nesse, sentido, restam dúvidas sobre a possibilidade de o acusado exercer a profissão. “Quando se trata de proteger a sociedade quanto ao exercício da Medicina, na medida em que o referido egresso, diante desta dúvida, objetiva sobre a sua conduta social, evidentemente não pode ter contato com pacientes, em situação de vulnerabilidade”, acrescenta o comunicado do Cremesp.O estudante tem o direito de recorrer da decisão no próprio Conselho até 30 dias após ser notificado.

Protesto

Estudantes fizeram ontem (9) protesto no prédio da Faculdade de Medicina da USP em repúdio à possível formatura e colação de grau de Cardoso. Na ocasião, a doutoranda em direito da USP, Marina Ganzarolli, explicou que, no total, seis denúncias foram feitas contra o acusado e quatro não levaram o caso para a Polícia Civil. A conclusão do curso pelo acusado foi informada às alunas por professoras.

CPI

Em dezembro de 2014, foi instalada na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar as denúncias de violência dentro da USP, especialmente na Faculdade de Medicina. A decisão foi tomada após a Comissão de Direitos Humanos da receber uma série de relatos sobre estupros, agressões e trotes violentos.

O relatório final da comissão, de março de 2015, inclui relatos de 112 estupros, ao longo de 10 anos, nos campi ligados à área de saúde em Pinheiros, zona oeste paulistana.

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Daniel Mello, Agência Brasil

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Fonte: Opinião