Aluga-se

:: Fernanda Torres em 24/02/2017 04:49 ::


Raul Seixas previu, a solução é alugar o Brasil.
Leia mais (02/24/2017 – 02h08)


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Silviano Santiago costura Grécia com Guanabara em ‘Machado’ – Fernanda Torres

Opinião:

Li “Dom Casmurro” aos 14 anos, para a escola. Não foi leitura fácil.

Em meio ao amor torto entre Bentinho e Capitu, dois capítulos me causaram espanto.

Sem aviso ou explicação, Machado interrompia a trama para falar dos vermes e das pirâmides. Em poucas linhas, ia do nada ao eterno. Foi a primeira vez que percebi a liberdade e o alcance da literatura.

Eu leria “Dom Casmurro” outras vezes e, como na mais intrigante das arqueologias, sempre haveria um Machado escondido sob outro à espera.

Mas foi Roberto Schwarz quem me revelou a crítica social contida na obra do bruxo do Cosme Velho.

Sua extraordinária ensaística machadiana trata do paradoxo do país escravocrata inserido na nova ordem econômica das revoluções liberais.

Graças a Schwarz, descobri, no anti-herói Brás Cubas, o divisor de águas que livrou Machado do malabarismo dos literatos de então, que tentavam acochambrar as relações de favor, o capricho volúvel dos sinhôs e o paternalismo arcaico daqui com os ideais românticos da Europa.

No entanto, sempre me intrigou, no trabalho do crítico, a ausência de qualquer menção ao delírio de Brás Cubas no leito de morte.

O fato não diminui a profundidade da análise, mas é como se o materialismo da tese não comportasse a cavalgada do moribundo sobre o Rinoceronte, a viagem no tempo, e o aterrorizante encontro com Pandora.

O recém-lançado “Machado”, de Silviano Santiago, veio completar a lacuna.

Sem “Ao Vencedor as Batatas” e “Um Mestre na Periferia do Capitalismo”, ambos de Schwarz, eu teria passado ao largo de muitas passagens do livro de Silviano.

Não sou doutorada no assunto, não conheço o trabalho de Lúcia Miguel Pereira, que o autor destaca, mas fechei a última página de “Machado” com a sensação de que visitara o imortal pelo outro lado do espelho de Schwarz.

A epilepsia é o fio condutor do romance, que começa com o Rio de Janeiro em transe, posto abaixo pelas ambições à la Haussmann de Pereira Passos. O vertiginoso primeiro capítulo desemboca em Gustave Flaubert, outro epilético, realista cínico e pessimista, cuja bibliografia ocupava lugar de honra, junto de Stendhal, na biblioteca do nosso imortal.

Como um barco sem amarras, e tendo em mãos a correspondência dos últimos anos do fundador da ABL, Silviano navega por notas de jornal, críticas, peças de teatro, artigos, receitas médicas, cartas e confissões íntimas, definindo Machado, numa biografia às avessas, através do que ele viu, leu e ouviu.

São longas digressões, à maneira dos vermes de Dom Casmurro, que aportam em Esaú, Jacó, Buster Keaton, Menassés e Efraim; no medíocre Mário de Alencar, no bem-sucedido doutor Miguel Couto, nos falidos barões de São Clemente e no oposto apolíneo do protagonista, o abolicionista Joaquim Nabuco.

Fiel aos contrários, Silviano encerra as memórias do seu defunto onde a narrativa póstuma de Brás Cubas começa, num brilhante capítulo dedicado ao delírio de morte. Nele, costura a Grécia com o Cosme Velho, Roma com a Guanabara, a Bíblia com Hesíodo, a República com a Monarquia, realismo com classicismo, até provar que Capitu é Pandora.

E encomenda a alma do gênio mulato com sua última obsessão, a “Transfiguração”, tela do pintor renascentista Rafael Sanzio, que retrata, na parte inferior, um menino epilético, curado por Jesus Cristo.

Um golaço o de Silviano. E dos mais delirantes.


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Opinião: Admiro quem escreveu sobre outro assunto que não política em 2016 – Fernanda Torres

Admiro os que conseguiram, em meio ao amargo ano de 2016, escrever sobre outro assunto que não a política e a economia. Não foi meu caso.

Acabei dragada, refém dos Renans, Cunhas, Geddeis, Trumps e afins, sem saber para onde, querendo ou não, o mundo vai caminhar. Suspeito que para a pior.

Este foi o ano em que a ficção tomou uma surra da realidade.

Filmes, canções, peças, novelas e poemas se provaram ingênuos, inócuos, diante da violência do noticiário. Fomos todos Clara, de “Aquarius”, limpando o pó dos vinis da estante, em meio aos tubarões de Boa Viagem.

Ilustração Fernanda Torres 30.dez

Gastei horas e horas de 2016 escutando análises de especialistas, na tentativa de ter uma opinião formada. Joguei a toalha numa terça-feira besta de dezembro, ao zapear pelos canais de TV e dar com o programa “Entre Aspas”, de Mônica Waldvogel, na Globonews.

A jornalista intermediava o debate entre dois doutores em economia, que divergiam sobre o impacto da aprovação do teto de gastos públicos na vida do cidadão.

Com os olhos arregalados, Pedro Paulo Bastos, da Unicamp, rebatia o diagnóstico do colega José Márcio Camargo, da PUC, de que corríamos o risco de nos transformar numa Venezuela, caso não freássemos o volume de benesses do governo, que atingiu a estratosfera durante o governo Dilma Rousseff.

Indignado, Bastos argumentava que as medidas de restrição penalizam apenas as classes mais baixas, seguindo a cartilha falida de Joaquim Levy, que levara o país à depressão. Segundo o especialista, não havia outra saída para nos tirar do lodaçal que não o aporte maciço de capital do Estado.

Camargo o olhava sereno, como se estivesse diante do equívoco em pessoa, respondendo que aquela fora a política adotada pela presidente afastada, política essa que nos levara ao fundo do poço.

Fui dormir convencida de que ambos estavam cobertos de razão. Todas as alternativas falharam. A economia não é uma ciência exata. Contra ou a favor, Fora Temer ou Dentro Temer, liberal ou pró-Estado, a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum.

Só Shakespeare para dar conta do paradoxo. Só Patti Smith cantando “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”, de Bob Dylan, na cerimônia de entrega do Nobel 2016; só uma boa tragédia grega para transcender o absurdo.

Me curei do “Entre Aspas” sentada entre os 40 espectadores do teatro Poeirinha, no Rio de Janeiro, onde Andréa Beltrão encena uma adaptação de “Antígona”, de Sófocles.

Diz o coro: “Muitas sa?o as coisas prodigiosas sobre a Terra, mas nenhuma mais prodigiosa do que o próprio homem. […] Tudo lhe e? possível. Na criação que o cerca só dois mistérios terríveis, dois limites. Um, a morte, da qual em vão tenta escapar. Outro, seu próprio irmão e semelhante, o qual não vê e não entende”.

A morte e o outro. A crise e a impossibilidade de diálogo entre as diversas crenças sociais, políticas, econômicas e religiosas.

Termino o ano na escuridão, elegendo a arte de farol.


Fonte: Opinião

Opinião: A entrevista de uma jornalista feminista que foi censurada pelo Altas Horas

“Estou há mais de uma semana tentando digerir o que aconteceu comigo no ‘Altas Horas’ e somente agora percebi que fui censurada”. Agredida grávida de três meses no meio da rua, na frente de uma delegacia, Letycia contou sua história no programa da Globo, mas o relato não foi ao ar

Letycia jornalista feminista censura latas horas

Letycia Oliveira no Programa Altas Horas (reprodução)

Letycia Oliveira*

Fui convidada a dar um depoimento sobre violência doméstica, o programa foi gravado na quinta-feira (10). Passei um dia nos estúdios da Globo em São Paulo, e durante toda a viagem fiquei pensando no que ia falar, afinal de contas estava indo dar voz a todas as companheiras maranhenses. Um espaço único, onde poderia falar ao Brasil inteiro sobre violência, feminismo e a luta que nós, mulheres, enfrentamos todos os dias.

Quando cheguei lá me dei conta de que meu depoimento podia causar algum dano, um linchamento social da pessoa que me agrediu e fiquei apreensiva, o Serginho Groisman entrou no meu camarim por dois minutos e conversamos sobre isso, eu estava nervosa, combinamos de falar das agressões sofridas sem que ficasse claro quem era o agressor, ou melhor os agressores, já que fui agredida duas vezes!

No quarto bloco ele me chamou, primeiramente falei “Fora Temer”, a plateia aplaudiu, e depois ele começou a me perguntar sobre o motivo de eu estar ali e respondi que já tinha sido agredida duas vezes, sofri assédio no trabalho, etc…

Em um determinado momento ele pergunta como foi que aconteceram as agressões, eu parei por uns segundos, meus olhos se encheram de lágrimas, respirei fundo, pedi desculpas por ter me emocionado e ressaltei que era um assunto difícil de falar, mas logo depois comecei a contar minha história.

Fui agredida grávida de três meses no meio da rua, na frente de uma delegacia, levei um soco na cara, aquele soco doeu no meu ventre, passei uma gravidez difícil, tive depressão pós-parto e fui internada louca num hospital, sofro de depressão há 10 anos, e tive quadros de transtorno bipolar…

O relato saiu como um escarro, uma catarse, a plateia fazia um silêncio, ninguém se mechia, as convidadas, a jornalista Maju Coutinho e a Rafa Brits, casada com Felipe Andreoli, que está grávida de sete meses, ficaram chocadas, atônitas.

O Serginho passava a mão na cabeça, depois me perguntou sobre a segunda agressão e eu escarrei de novo outra história triste, contei que uma vez quase me jogava de um carro em movimento por conta das agressões verbais de um ex-namorado, que estava ameaçando me largar sozinha no meio da rua de noite e por fim, quando consegui ter o reflexo de pegar meu celular, ele parou o carro e eu consegui fugir, acabei sendo toda arranhada, pois ele me puxava pra ficar.

Um garoto do auditório me fez uma pergunta, a “clássica”, “por que a mulher volta pro agressor?”. Eu respondi que a mulher está só, muitas vezes depressiva, com a estima arrasada, e ama o agressor, ele pede desculpa, diz que vai mudar e você volta, e apanha de novo, e sofre tudo de novo, e nada muda, é um ciclo que se repede na maioria dos casos.

A mulher é sempre culpada, ela “gosta de apanhar”. Ninguém percebe que aquela mulher precisa de ajuda pra sair desta situação. Mais silêncio no estúdio.

Assim que terminou a entrevista, me retiram do estúdio rapidamente, me colocaram no carro de volta para casa, e já no caminho recebo uma ligação da produção dizendo que a entrevista não iria ao ar por uma questão de proteção à minha filha, pois ficou claro quem era o agressor no meu discurso.

Justificaram que a minha filha não podia ficar sabendo disso pela TV, que podia ter uma repercussão negativa, que já haviam tido outros casos assim e que a entrevista havia ficado longa e precisariam cortar por causa da corrida de Fórmula 1.

Aceitei e disse que tudo bem, e na hora achei até bom, por que acabei expondo a minha vida para 200 pessoas num estúdio de gravação e essas 200 pessoas ficaram chocadas imagina o Brasil inteiro? Mas passaram alguns dias e fui me dando conta de que essa é uma história real, minha história é a história de milhares de brasileiras que sofrem com a violência todos os dias, na maioria das vezes dentro de casa, pelos seus companheiros, nas ruas somos abusadas cotidianamente com assobios, cantadas, todas conhecemos uma mulher que já foi estuprada ou que já sofreu algum tipo de violência.

Quem são essas mulheres? Somos nós, todas nós! Que crescemos com medo de ser estupradas, que temos que nos proteger o tempo inteiro de abusos, somos criadas pra servir aos homens e a essa sociedade machista que nos trata como objetos. E não podemos falar nada, não podemos falar do agressor, não podemos falar de estupro, de que somos violentadas. O programa Altas Horas não calou uma mulher, calou todas as mulheres do Brasil!

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Mulheres que queriam poder ter a coragem que eu tive de falar a todo mundo o que acontece todos os dias. O agressor está próximo, dentro de casa, só podemos falar depois que ele morre? Enquanto isso continuam por aí agredindo e maltratando outras mulheres? Acredito que o agressor também é uma vítima dessa sociedade machista em que vivemos, as mães e pais criam esses homens, a sociedade cria o agressor que não é um doente, mas sim um fruto do machismo, que todos os dias vitima nossas mulheres.

No Maranhão, esta semana aconteceram crimes bárbaros, foram seis feminicídios em sete dias, inclusive a sobrinha-neta do ex-presidente José Sarney foi asfixiada e morta, e há suspeita de ter sido estuprada pelo próprio cunhado. Em Coroatá, interior do estado, uma mulher foi degolada. No Brasil a cada 11 minutos uma mulher é estuprada, a cada 7 minutos a Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres da Presidência da República recebe um relato de violência, em São Luís, 12 mulheres são vítimas de violência por dia.

Onde estão essas mulheres? Caladas! Não podemos falar da violência que sofremos pois nos sentimos ameaçadas e ainda sofremos preconceito, a mulher ainda é culpabilizada por sofrer a violência.

Voltando ao assunto de ter sido censurada no programa Altas Horas, digo mais, acho que eles estavam esperando uma mulher do Maranhão que ia contar uma história de superação, uma coisa “bonitinha”, que a plateia ia ouvir e depois sair feliz batendo palma, a história de uma mulher que apanhou e venceu. Venci sim, mas as marcas da violência a gente carrega por toda a vida.

Eles não tinham noção de quão forte seria aquele depoimento, e mais, que aquilo poderia chocar mais do que as novelas que assistimos que mostram tudo isso, mas fazem parecer que é só ficção, e não é, violência contra a mulher não é ficção é verdade e está por aí nos cercando por todos os lados e o machismo nos calando.

A Globo não calou uma mulher e sim as mulheres do Brasil inteiro!

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*Letycia Oliveira é jornalista, repórter, assessora de imprensa, mãe independente e feminista.

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Fonte: Opinião

Opinião: Para prospectar na política, é preciso erradicar de si qualquer moralidade – Fernanda Torres

Quando olhei para a fotografia de Anthony Garotinho sendo enfiado à força numa ambulância estampada na primeira página, jurei que era a charge do dia de Chico Caruso. Depois, assisti à ópera pela TV e cogitei tratar-se de encenação.

Garotinho surge na maca, parece conformado, mas, de repente, dá um pulo de prima-dona com a mão em riste e começa a se debater. A cena anterior à saída, dele chutando os policiais no quarto, corrobora a veracidade do desespero, mas não duvido que, mesmo abatido, o ex-governador não tenha pensado em tirar vantagem do instante trágico.

É impossível, na política, separar fingimento de honestidade.

O registro de Sérgio Cabral derreado, dando entrada na ala do presídio que ele próprio inaugurou, me fez pensar se, em algum lugar recôndito da consciência do (também) ex-governador do meu Estado, ele admite que, para cada Louboutin que sua mulher tão contente exibe num cancã entre amigas, algo de podre acontece na vida real.

Rio de Janeiro (RJ), 17/11/2016, Anthony Garotinho / Transferência - O ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, é transferido do hospital municipal Souza Aguiar para o presidio em Bangu. Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
O ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, é transferido do hospital municipal Souza Aguiar para o presidio em Bangu

Talvez não. Para prosperar no meio, é preciso se descolar da realidade e erradicar de si qualquer vestígio de moralidade. Geddel Vieira que o diga.

O pré-sal agravou o quadro psicótico, a indiferença do farinha muita, meu pirão primeiro. E não só no Rio.

Antes de o petróleo jorrar, as propinas foram calculadas, e pagas, com base nos ganhos futuros. Forraram-se os bolsos e alimentou-se a máquina partidária, na esperança de que sobraria para reformar um hospital aqui, outro acolá. O extrativismo entre nós é tão arraigado que ninguém acredita em gestão.

Na segunda-feira, quando fui trabalhar, ouvi da cabeleireira que seu namorado havia levado três tiros num assalto coletivo a um posto de gasolina, perpetrado por 40 motoqueiros encapuzados. Duas maquiadoras ficaram ilhadas no meio do tiroteio da Cidade de Deus, onde sete jovens foram assassinados e quatro policiais mortos na queda de um helicóptero; e o figurinista, habitante de Copacabana, não saiu de casa porque o bairro está tomado por hordas de delinquentes que atacam transeuntes à luz do dia.

Para Garotinho e Sérgio Cabral a culpa é da baixa das commodities, da crise internacional, da perseguição política ou do azar crônico do brasileiro.

O tratamento de choque do juiz Sérgio Moro liga os fios à cúpula do PMDB carioca. Um amigo foi almoçar no Esplanada Grill do Leblon e cruzou com cinco anônimos de tornozeleira traçando uma picanha nobre. Falta saber se a investigação atingirá os demais partidos e os figurões do Congresso.

O mundo rui, lá fora, e eu me agarro à biografia de Sigmund Freud, de Elisabeth Roudinesco.

A geração que viveu a primavera da “belle époque” de Viena foi atropelada pela ascensão de um nacionalismo raivoso, semelhante ao dos que invadiram o plenário pedindo a volta dos milicos. Esse nacionalismo deflagrou a Primeira Guerra Mundial e atingiu o clímax com o nazismo.

Tudo pode piorar.

“Não víamos os sinais ígneos”, disse Stefan Zweig, que, fugido, acabaria por se suicidar no Brasil. “Nos refestelávamos, despreocupados, com todas as iguarias da arte, sem olhar com medo para o futuro. E só quando, mais tarde, as paredes desabaram sobre nós, reconhecemos que os alicerces, há muito, já estavam solapados.”

Freud intuiu a pulsão de morte nesse período. No lugar de Édipo e Hamlet, Narciso. Um homem incapaz de frear o irresistível impulso de se autoaniquilar.

É o que ando sentindo. No planeta e aqui.


Fonte: Opinião

Opinião: Boitempo lança portal Enciclopédia Latinoamericana

latinoblog

A Latinoamericana: enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe é uma enciclopédia diferente das outras, e dizer isso não significa minimizar a contribuição que outros dicionários de cultura possam ter, mas destaca uma qualidade que foi definitiva para que esta publicação ganhasse o Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Não-Ficção de 2007: trata-se de um projeto ambicioso, que busca dar conta de uma ampla gama de temas e de todos – absolutamente todos – os países e territórios da América Latina e do Caribe, para oferecer uma visão crítica abrangente e múltipla do último cinquentenário de sua história. Escrita por mais de cem autores (entre eles, alguns dos mais respeitados intelectuais contemporâneos), a obra acaba de ganhar uma plataforma na internet, disponibilizada para o público que terá acesso gratuito a mais de mil verbetes, publicados na íntegra.

A ideia é que o portal Enciclopédia Latinoamericana (http://ift.tt/2gynGw9) promova o compartilhamento de saberes e esteja à disposição de estudantes, professores e pesquisadores que dependem de uma fonte segura para fazer os seus estudos. Na passagem da versão física para a versão eletrônica os verbetes foram atualizados (e alguns novos foram inseridos), levando em consideração os acontecimentos dos últimos anos.

O portal foi lançado com o propósito de ampliar um conteúdo que até então só existia na edição em papel, incorporando as facilidades proporcionadas pelo meio digital e ampliando o alcance de sua leitura. Outro aspecto que marca a Latinoamericana é – nas palavras de Ivana Jinkings, diretora editorial da Boitempo e coordenadora da obra impressa junto com Emir Sader, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile – a sua relação com “a luta de resistência ao neoliberalismo e de resgate do continente com todas as suas dimensões históricas e culturais, políticas, econômicas e sociais”. “As centenas de autores e colaboradores aqui reunidos, todos incluídos na tradição do pensamento crítico e independente, refletem a criatividade, a diversidade e a riqueza das análises da América Latina e do Caribe”, acrescenta.

O que mais chama a atenção na enciclopédia, entretanto, é que ela não é um compilado de dados e curiosidades sobre a cultura dos países abordados, mas um conjunto de ensaios com personalidade, razão pela qual não deixa de ser também uma obra autoral.

Publicação pioneira, que contou com a participação de Álvaro García Linera, Ana Esther Ceceña, Aníbal Quijano, Atilio Boron, Edelberto Torres-Rivas, Eduardo Galeano, Emir Sader, Fernando Martínez Heredia, Flávio Aguiar, Francisco de Oliveira, Gerardo Caetano, Héctor Alimonda, Luiz Alberto Moniz-Bandeira, Marcio Pochmann, Marco Gandásegui, Néstor García Canclini, Pablo Gentili, Ricardo Antunes, Theotonio dos Santos, Tomás Moulian, Vivian Martínez Tabares, Wilson Cano e muitos outros autores, a Latinoamericana tem ainda o mérito de reunir um contingente plural e qualificado, como raras vezes se viu em um empreendimento cultural.

Portal da Enciclopédia Latinoamericana (banner)


Ficha técnica
Equipe de atualização: Carlos Eduardo Martins, Emir Sader, Fernanda Morotti, Gilberto Maringoni, Marcio Pochmann e Monica Rodrigues

Edição dos textos na versão impressa: Aluizio Leite Neto e Antonio Roberto Espinosa
Edição do portal: Gerson Sintoni e Celia Regina B. Ramos
Pesquisa iconográfica: Vanessa Lima
Programação: Simples Consultoria
Coordenação administrativa: Elaine Ramos
Apoio: CAF Banco de Desarrollo de América Latina, Fundação Ford e Petrobras


Fonte: Opinião

Opinião: O que desola numa vitória de Crivella é a sombra da perseguição religiosa – Fernanda Torres

Foi Caetano Veloso quem me apresentou à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Salvador. Erguido no século 18, no Pelourinho, por irmandades de escravos e alforriados, o santuário é prova viva da fusão religiosa que ocorreu no Brasil.

A missa da Nossa Senhora dos Pretos mistura santos e orixás. Diferentemente do gospel, que só herdou da África a elevação do canto, na capela baiana os atabaques comem soltos, marcando o ritmo para o gingado dos fiéis encarnados. Oxossis, Nanás e Oxuns adentram a nave para reverenciar as imagens de Nossa Senhora, são Benedito, santa Bárbara e Cristo na cruz. Oferendas são depositadas no altar, num rito que poderia ser considerado profano, não fosse a aprovação do episcopado local.

E foi o mesmo Caetano quem me contou que Mangabeira Unger vê benefícios no avanço da Igreja Evangélica no país. Ao contrário do catolicismo romano, que prega o conformismo em vida, para alcançar a plenitude no pós-morte, o culto evangélico abençoa a prosperidade.

Ilustração de Marta Mello para a coluna de Fernanda Torres de 28 de outubro de 2016

O caso de Ney, um mestre de obras que costumava fazer reparos na minha casa, corrobora a opinião de Unger. A mulher de Ney caiu numa depressão tão profunda que não havia doutor, padre ou remédio que desse jeito na pobre. Salva pela comunidade evangélica do bairro em que vivia, ela convenceu o marido a acompanhá-la no culto, a fim de agradecer a paz. Ele não só se converteu como abandonou o antigo emprego para abraçar uma outra carreira. Ney virou pastor.

Casos assim me fazem frear o engulho que tenho do argentarismo que obriga desvalidos a doarem o que não possuem, alegando que Deus exige deles uma prova. O progresso preconizado nos templos tanto pode gerar ministros que fazem fortuna com o dízimo quanto oferecer uma saída concreta para a angústia e o abandono social,

Não acho certo julgar a crença alheia; a pedofilia na Igreja Católica não é menos condenável, assim como o charlatanismo praticado em muitos terreiros. Mas detecto, em mim, uma mistura de medo e preconceito com relação à ascensão evangélica. Me desagrada o viés fundamentalista, em especial, a demonização que promove das religiões africanas que aqui prosperaram.

Levamos séculos para fundir Nosso Senhor com Oxalá. O sincretismo evidencia a resistência da cultura negra à escravidão, e a permeabilidade da colonização portuguesa é algo inseparável da nossa história.

Se a condenação se restringisse aos cultos, eu nada teria a dizer, mas a objetividade prática dos evangélicos ganha poder no Congresso, em meios de comunicação e cargos executivos.

No Rio, Marcelo Crivella se apresenta como um homem cordial e tem grandes chances de se tornar prefeito. Talvez por eu ser sobrinha de uma mãe de santo, mais do que o horror da homofobia, do conservadorismo ou do retorno ao populismo tacanho de Anthony Garotinho, o que desola numa possível vitória de Crivella é a sombra da perseguição religiosa.

Trata-se de uma ameaça que fere, em cheio, o significado histórico, social, humano, pio e cultural da liturgia da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.


Fonte: Opinião

Implantar um currículo espartano, através de uma MP, está longe do ideal – Fernanda Torres

Tenho um aluno do segundo ano do ensino médio em casa. Dono de um raciocínio lógico capaz de solucionar questões complexas de matemática, ele aprende com facilidade e demonstra aversão pelo atual sistema de ensino.

Filho, neto e sobrinho de autodidatas, todos ligados às artes, meu rebento reclama do pouco tempo reservado à sociologia, à filosofia e à literatura, e se ressente de um intercâmbio maior entre as disciplinas.

Tédio e raiva resumem o seu sentimento com relação à escola.

Mangabeira Unger, em entrevista ao programa “Diálogo”, fez coro ao diagnóstico de que estudantes do século 21 frequentam salas de aula do século 19. Danilo Miranda, diretor do milagroso Sesc paulista, afirma que o currículo procura formar mão de obra e não cidadãos.

Ilustração de Marta Mello da Coluna de Fernanda Torres de 30 de setembro de 2016

Há, mesmo, algo de podre na educação.

Os colégios que não se enquadram no modelo competitivo do Enem correm o risco de soçobrar no mercado. Para garantir a boa colocação na lista de excelência, adestra-se os colegiais para o provão à partir do 1º ano do fundamental 2.

Dali para frente, triunfa um funil angustiado de múltiplas escolhas, onde pouco importa a curiosidade do aluno. O cardápio de matérias lembra o daqueles restaurantes que servem de estrogonofe à filé à cubana e mais entope do que alimenta, formando um exército de adolescentes paranoicos e enfadados.

A flexibilização do currículo é bem-vinda; mas o plano de dobrar o tempo de duração na carteira vitoriana, abolindo filosofia, sociologia, artes e esporte me espanta.

Quando visitei o Escorial, palácio construído por Felipe 2º nas cercanias de Madri, chamou-me a atenção os afrescos em homenagem às sete artes liberais, que ornam o teto da biblioteca.

Base do pensamento escolástico, criado nos monastérios medievais com o intuito de conciliar o ensino da fé e da razão, as artes da retórica, da dialética, da música, da gramática, da aritmética, da geometria e da astrologia pretendiam formar homens livres.

A filosofia, a arte e a sociologia são um grande antídoto para o grilhão da decoreba. Elas relacionam, como poucas cadeiras, o estudo de história, geografia, política, ciência, letras e matemática, desenvolvendo o diálogo, a criatividade, o raciocínio e a argumentação.

Meu filho, que é um furioso, no sentido romântico da palavra, reagiu aos cortes dizendo que o objetivo das medidas é escravizar a rotina de estudo para impedir que os alunos pensem.

A Finlândia reduziu o tempo de escola, aposentou o dever de casa, descartou a múltipla escolha e galgou o primeiro lugar no ranking de educação mundial.

Apostar no ócio criativo num país como o nosso, com problemas de segurança, habitação, saúde e saneamento seria uma guinada arriscada, mas implantar um currículo espartano, que não considera a saúde mental e física dos alunos, através de uma MP, está longe do ideal.

Dentre todas as dúvidas práticas suscitadas pelas novas diretrizes, uma me perturba em especial.

Não há método que resista a um professor ruim. Se mal se consegue arregimentar quadros capazes de alfabetizar a contento, de onde surgirão os milhares de mestres não licenciados, dotados de notório saber, que preencherão as demandas de um horário integral no ensino médio?

Essa é a questão.


Fonte: Opinião

A globalização das torcidas argenta, homogeneíza e militariza os povos – Fernanda Torres

O primeiro e único show a que assisti da Madonna foi o do Maracanã, de 1993. A meio caminho andado, a Material Girl apareceu com uma camisa da seleção canarinho, arriscando umas gírias em português. A turba foi à loucura. Mas o que prometia evoluir para uma interação genuína com os nativos assumiu um tom imperialista pra lá de duvidoso.

A diva meteu um quepe de milico na cabeça, o rufar de um tambor de quartel ecoou nas caixas e uma gigantesca bandeira dos Estados Unidos foi desfraldada no fundo do cenário. O pelotão de bailarinos fardados ocupou o palco, e Gilberto Gil, em pé, atrás de mim, exclamou incrédulo: “Meu Deus, é uma invasão!”.

Ilustração Fernanda Torres de 26.ago.2016

O espanto que senti me fez lembrar de um jogo de basquete que presenciei no Madison Square Garden, dois anos antes da marcha ofensiva da Madonna. A cada dez minutos, a partida era interrompida por uma quadrilha de meninas de pompom, que rebolavam sob um pop ensurdecedor, seguidas de comerciais estereofônicos que faziam tremer a sala.

A torcida, regida pelos alto-falantes, nada tinha da espontaneidade que sempre me encantou nos embates futebolísticos. Mal se ouvia os “ohhhs” e “ahhhhs” da massa, os apupos e gritos de guerra que emergem involuntários do caos da arquibancada.

O artifício garantia o espetáculo, à moda das atuais casas de festa infantis, que torturam as crianças com a histeria das melodias bregas e dos enervantes MC’s.

Dia 10 de agosto, na partida de vôlei feminino entre Brasil e Japão, no Maracanãzinho, descobri que o american way de torcer virou regra, dando cabo da humanidade nos combates.

Dois DJs comandavam os torcedores debaixo de um baticum estridente, com bordões e coreografias ensaiadas de mãozinha para cima a cada saque, cada ponto, cada reviravolta. Uma artificialidade idêntica à do exército da Madonna e à das cheerleaders do basquete nova-iorquino.

A reação dos espectadores só era ouvida nas poucas brechas, entre um “We We We Will Rock You” e uma melô do Darth Vader. A única manifestação natural audível, capaz de vencer os decibéis, era a vaia patriótica.

É de se esperar que uma nação sedenta de medalhas vaie o adversário. Mas a trilha irritante tomava partido da equipe de casa, o que deveria ser proibido pelo Comitê Olímpico.

Se eu fosse atleta, faria um abaixo-assinado exigindo a volta do silêncio atômico nas competições. Como é possível sacar ao som de um disco funk?

Os Jogos nasceram na Grécia e deveriam se manter fiéis à elegância frugal do berço do ocidente. Bolt pediu silêncio e o Engenhão respeitou, foi lindíssimo. Um estádio inteiro calado para testemunhar os 100 metros do gênio.

Na prova de trave da ginástica artística feminina, animadores desafinavam na trilha e nas piadas sem graça. Mas a medalha de ouro da verborragia é dele, Galvão Bueno, que interrompeu uma largada da natação, ganhando um “cala boca, Galvão” da BBC.

Pra que capitanear a plebe? O esporte fala por si.

A globalização das torcidas homogeneíza, militariza e argenta os povos. É tão triste quanto um McDonald’s no Boulevard Saint-Germain.

Como bem disse o Bolt: Shhhhhh…


Fonte: Folha

Não tendo esperança, Hector Babenco viveu mais que o esperado – Fernanda Torres

O jovem cineasta se contorcia de ansiedade, à espera de saber se seu filme seria, ou não, selecionado para um dos grandes festivais de cinema do mundo. “Eu também já tive tanta esperança…”, disse Hector Babenco, que testemunhava o sofrimento com um misto de ironia e compaixão.

A frase se transformou num mote que me guia desde então. Toda vez que me vejo aflita, na expectativa de resultado, ouço o inconfundível sotaque portenho ecoar: “Eu também já tive tanta esperança…”.

Babenco enfrentou um câncer linfático no momento em que sua carreira deslanchava nos States. Na noite anterior ao transplante, o irmão lhe cobrou um milhão de dólares pela medula. A cena está lá, no derradeiro filme, “Meu Amigo Hindu”, que trata da origem de seu longo, e refinado, duelo com a morte.

Cedo, aprendeu a não ter esperança. E, não tendo, viveu mais do que o esperado.

Hector Babenco - 1946-2016
O cineasta Hector Babenco, morto em julho de 2016

Era carinhosíssimo e sincero como uma navalha afiada. Aos menos íntimos, a sinceridade poderia parecer crueldade, mas era sinal de respeito por quem ele amava e admirava.

Nada tinha do brasileiro cordial, de salão, era um judeu argentino, profundo, culto, cortante, como a nossa mistura de português, africano e índio não sabe ser. Ou compreender.

Chegou ao Brasil pela raia de fora, na contracorrente do cinema novo, dirigindo um documentário sobre Fórmula 1. Fez “O Rei da Noite”, “Lúcio Flávio” e fez “Pixote”. “Pixote” não se enquadrava em nenhuma escola nativa, era cru, violento, realista, tocante e difícil de suportar.

Clássico.

Marília dando de mamar para Fernando Ramos, a puta dançante, iluminada pelo farol. E Jardel, meu Deus, Jardel passando em revista os internos da Funabem. Que cena. Jamais esqueci.

Existem inúmeras histórias folclóricas a respeito dele. A do elenco americano que se revoltou porque o diretor matou uma aranha no set de “Brincando nos Campos do Senhor”. “Uma aranha não pode, mas os milhões de índios e vietnamitas que você assassinaram não tem problema”, devolveu, de bate-pronto, para as divas com propensões ecológicas.

E tem a de Dionisio Neto, que foi espairecer no litoral de São Paulo, durante uma folga de “Carandiru”. Às sete da matina da segunda-feira, de volta ao batente, o ator descobriu que a primeira sequência do dia seria o seu dó de peito na película. Relaxado da praia, não rendeu sofrimento digno. Hector, sentado diante do monitor, berrava para quem quisesse ouvir: “Dionisio, estou te dando um CLOSE! É a chance da tua vida, Dionisio! E não tem nada aqui!!!”.

Perdi três oportunidades de trabalhar com ele. Foi medo, acho. Gostava muito do Hector, jamais me importei de ele ter sido o primeiro na fila do camarim, na estreia de “A Casa dos Budas Ditosos”, para me dizer que tinha detestado a peça. Eu adorava a franqueza mortal dele, mas tinha receio de não resistir no set.

Li malíssimo um teste de “Carandiru”. Minha analista, na época, achou que fiz de propósito. Há controvérsias. Ele voltaria a me sondar para um papel em “O Passado”, mas as datas não coincidiram, o mesmo se deu com “Meu Amigo Hindu”. A cada novo convite, eu experimentava o orgulho dele de ainda ter respeito por mim e o pânico de não estar à altura de sua exigência.

Era impossível mentir para ele.

Na semana em que o Babenco partiu, revi “O Último Imperador,” do Bertolucci, e pensei nele e na geração dele, que nutria adoração pelo italiano. Que falta faz um cinema assim.

Que falta imensa fará o Hector.


Fonte: Folha