Pós-verdade dá a impressão de que a política já foi o lugar da verdade

:: Gregorio Duvivier em 06/03/2017 04:48 ::

“Pós-verdade” foi eleita a palavra do ano de 2016 pelo dicionário “Oxford”. A imprensa explica que Trump ganhou por causa da pós-verdade —”o presidente inventa fatos que não ocorreram mas o povo não se importa e acredita em tudo o que ele diz”. Trump, estranhamente, também credita à pós-verdade a enxurrada de críticas que recebe —”a imprensa inventa fatos que não ocorreram mas o povo não se importa e acredita em tudo o que ela diz”. Leia mais (03/06/2017 – 02h00)

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Sobre o vasto léxico referente aos órgãos reprodutores e suas nuances

:: Gregorio Duvivier em 20/02/2017 03:59 ::


Tendo versado sobre o caráter metafórico da palavra caralho, gostaria de me dedicar aos termos que designam, no português, o órgão sexual masculino.
Leia mais (02/20/2017 – 02h06)


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O carnaval de rua é um milagre que aconteceu apesar de tudo e todos

:: Gregorio Duvivier em 13/02/2017 04:28 ::


O Rio é a única cidade cujo hino é uma marchinha de Carnaval. Nosso hino não fala de guerras, de honra, nem de inimigos, mas de “jardim florido de amor e saudade” e “ninho de sonho e de luz”. Todo líder mundial que passar pelo Rio vai ter que ouvir “Cidade Maravilhosa”. É oficial: a marchinha nos rege.
Leia mais (02/13/2017 – 02h00)


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Lá vem textão – Gregorio Duvivier

[ Opinião ]

Tem países que parecem ter a problematização como lema. “Liberté, egalité, problematisez”. Não discordar de um francês equivale a não pechinchar no mercado árabe: um acinte. Discorda-se primeiro, por hábito. Depois é que se ouve o que o outro tem a dizer.

O hábito da problematização, assim como o café gelado e a cerveja quente, não vingou na América subequatorial. Já dizia aquele que foi talvez nosso maior filósofo: “Não me venha com problemática que eu tenho a solucionática” (MARAVILHA, Dadá; 2001). Nos últimos anos a fórmula Dadaísta caiu em desuso. A filosofia solucionática tornou-se obsoleta.

O funk. As marchinhas de Carnaval. Monteiro Lobato. José de Alencar. O futebol. A purpurina. A língua portuguesa (denegrir, mercado negro, boçal, mulato, o lado negro da força). “Está vendo, Simba? Tudo o que o sol toca. Tudo o que os seus olhos podem ver. Tudo isso é passível de problematização.”

“A Bela e A Fera” conta a história de uma vítima que se apaixona pelo sequestrador. Hamlet é a história de um namorado abusivo que mata Ofélia praticando “gaslighting” (ser ou não ser está longe de ser a grande questão ali). As marchinhas de Carnaval e seus alvos sempre minoritários: índios, gays, lésbicas, negras, martiniquenses. Problemático? Certamente. Mas você quer viver num mundo sem Shakespeare, marchinha de Carnaval ou a Bela e A Fera? Não, imagino. Mas e você quer viver num mundo em que o machismo é celebrado diariamente nos museus, teatros e blocos de Carnaval? Também não, obrigado.

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Eike foi de empresário-modelo a batata quente de peruca, por Gregorio Duvivier

GGN:

Categoria: 

Análise

Jornal GGN – Em sua coluna na Folha de S. Paulo, o ator e escritor Gregorio Duvivier comenta o caso de Eike Batista, empresário antes incensado e que foi preso hoje (30) pela Polícia Federal em um desdobramento da Operação Lava Jato.

Quando se trata de descobrir que é o culpado por “essa monstruosidade”, esquerda e direita se dividem, e, para Duvivier, os dois lados estão corretos. “O filho foi gerado pelo país inteiro, numa espécie de suruba transpartidária e supraideológica”, argumenta, dizendo que o Brasil ama seus bilionários, e faz vista grossa para seus desvios.

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Eike, de empresário-modelo a batata quente da peruca laranja – Gregorio Duvivier

Opinião:

O Brasil é um país dividido. Há quem chame de impeachment, há quem chame de golpe. Há quem chame biscoito de biscoito e há quem chame biscoito de bolacha (reparem na imparcialidade do colunista). Há quem ponha o feijão por cima do arroz, há quem ponha o feijão do lado e há, acredite, quem ponha o arroz por cima do feijão. Perdoa-lhes, Pai. Eles não sabem o que fazem.

Por vezes, ainda acontece de o Brasil se unir num grande bloco como outrora. No momento, o que une o Brasil é Eike Batista. Parece que o país inteiro está juntinho, como uma família em volta da televisão –no tempo em que a família se juntava pra ver televisão– se perguntando a mesma coisa: será que ele acha que não dá pra perceber que ele usa peruca? E logo em seguida: será que ele escolheu uma peruca alaranjada antes ou depois do Trump? Quem foi que criou essa tendência?

Logo em seguida às questões de ordem capilar, acredito que venha uma pergunta mais difícil de se responder: de quem é a culpa por essa monstruosidade? Não a peruca, mas o sujeito. Como alguém acreditou que esse homem prestava? Pronto. Acabou o amor. É aí que o Brasil se separa de novo.

O lado de esquerda da família –o tio comunista, o cunhado de humanas, a prima percussionista –vai dizer que a culpa é da direita. Vai mostrar fotos de Eike com Aécio, Doria e Anastasia, tuítes do Luciano Huck, capas da “Veja”. Tudo verdade.

O lado de direita da família –o avô tucano, o cunhado do mercado financeiro, a prima que estudou na British– dirá que a culpa é da esquerda. Não será difícil encontrar fotos de Eike com Lula e Dilma, gráficos que mostram como Eike cresceu com o PT, matérias sobre a parceria dele com o BNDES. Tudo verdade.

É muito comum que, numa discussão, todo mundo esteja errado. Nesse caso, me parece o contrário: todo mundo tá certo. O filho foi gerado pelo país inteiro, numa espécie de suruba transpartidária e supraideológica –PT, PSDB, PMDB, mas não só.

Eike Batista é bilionário num país que ama os seus bilionários –e faz vista grossa pra qualquer desvio vindo deles. Quando a gente ouve “setor público” a gente logo pensa em corrupção e ineficiência, quando a gente ouve “setor privado” a gente pensa em competência e honestidade –isso no país de André Esteves, Marcelo Odebrecht, Daniel Dantas, Sergio Naya e a lista é longa.

O povo tá certo de não confiar em político –mas tá errado de confiar cegamente em empresário. Sobretudo os de peruca alaranjada. Mas não só.


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Desculpe-me o leitor pudico – Gregorio Duvivier

Opinião:

Peço desculpas ao leitor pudico, mas tem horas em que apenas uma palavra chula pode dar
conta do espanto. Caralho.

“Por que não cacete?”, dirá o leitor pudico. Um cacete, leitor pudico, neste caso não basta. Tampouco porra faria efeito. Claro que porra tem o seu valor. Mas esta semana, especificamente esta semana, pedia um caralho. “E por que não ‘buceta’?”, sugerirão, quem sabe. “Até as exclamações precisam ser falocêntricas?” Mas caralho, explico, tem pouco tem a ver com o falo em si. Diria, inclusive, que o caralho é o oposto do pênis.

Enquanto pênis é o pau quando observado na condição de órgão sexual, o caralho é o pau em sua condição exclamativa ou evocativa. Assim como a língua inglesa diferencia o porco vivo (“pig”) do porco no prato (“pork”), a língua portuguesa difere o pau imanente do pau transcendente. Não se diz, em português, “como é bonito o seu caralho” ou “sinto dores no caralho”. O caralho nunca é o seu, tampouco é o dos outros.

A expressão “ai, meu caralho!” difere da expressão “ai, meu pau” porque pode, inclusive, ser dita por uma mulher, assim como “ai, meu saco” (enquanto o pau é sempre literal e o caralho é sempre metafórico, o saco pode ser ao mesmo tempo literal e metafórico). Por isso, quando alguém se referir à casa do caralho, não estará falando das cuecas, tampouco estará falando de quaisquer órgãos sexuais em que ele possa se encaixar. Da mesma maneira, quando diz-se que uma cerveja é “boa pra caralho” não se está dizendo que a aplicação da cerveja na região peniana trará benefícios à saúde do mesmo.

Antes que os filólogos me ataquem: não estou dizendo que o caralho não tem forma. Tem, sim. Por isso, pode-se comentar que tal cabeça tem “formato de caralho”, ou perguntar, como Noronha em “Sete Gatinhos”, “quem foi que desenhou caralhinhos voadores na parede do banheiro?” (RODRIGUES, Nelson; 1958). O que disse foi que o caralho é platônico: pertence ao campo das ideias.

Peço, então, licença-caralho para usar a expressão platônica à vontade, porque no momento presente eu tô cheio de dúvidas. Ou melhor, tenho dúvidas pra caralho.

Por que caralhos foi cair logo o avião do relator da Lava Jato? Que caralhos ele estava fazendo lá dentro daquele caralho? E por que é que foi cair logo lá na casa do caralho? E o pior: é verdade que estão pensando em pôr no seu lugar o ministro que tem a cabeça em formato de caralho? Isso vai dar uma merda do caralho.


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Opinião: O Brasil vai ser um case de sucesso – Gregorio Duvivier

Querido pessoal de humanas: a ideia de vocês é ótima. Mas vocês não entendem nada de economia. Se a gente abolir a escravidão, o país vai quebrar. É claro que a escravidão não é o ideal. O ideal era que todo mundo ganhasse alguma coisa pelo trabalho que faz. Nem que fosse um trocadinho. Mas nem tudo é perfeito. Não existe almoço grátis.

Ninguém estudou a fundo o impacto econômico desse negócio de abolição. Ninguém sentou a bunda na cadeira e fez um “feasibility study”. Esse povo de humanas nem sabe o que é isso. Ou vai me dizer que alguém escreveu um paper? Quando você põe a abolição na ponta do lápis, a conta não fecha. De onde é que vai sair o dinheiro pra pagar o escravo? Do bolso do abolicionista é que não é. A resposta você já tem: vai sair do bolso do empresário. Se o negócio hoje já tá difícil pro jovem empreendedor, imagina se ele tiver que pagar pelo trabalho dos escravos que ele comprou com o suor do próprio rosto! O sujeito vai quebrar. E quem é que se ferra? Só o empresário? Negativo. Quem se ferra é todo mundo. Inclusive o escravo, que agora, além de escravo, vai ser desempregado. Quer dizer, no caso dele, acho que dá mais ou menos no mesmo. Fora o escravo, que pra ele tanto faz, todo mundo se ferra, porque o investidor vai correr pra um país em que ele não precise pagar pela mão de obra. E o que é que acontece? O país quebra. Fundamentos de economia, pessoal. Não sou eu quem tá falando. É Adam Smith.

OK. Vocês tinham razão quanto à escravidão. Não quebrou. Mas esse negócio de salário mínimo já é exagero. Coisa de gente que nunca abriu um negócio. A conta não fecha. Sabe o que vai acontecer? O país vai quebrar. O investidor vai preferir os países em que o Estado não se mete no salário do empregado. E o país? Vai quebrar.

Férias remuneradas? A conta não fecha. Décimo terceiro? Vai pra Cuba. PEC das domésticas? Pode declarar bancarrota. Priorizar saúde e educação? Que lindo. Mas sabe o que é lindo também? Pagar as contas. A quem interessa saúde e educação? Ao povo. Muito fácil pensar no povo. Mas e o investidor que chega aqui e vê um país perdulário, que só faz gastar dinheiro com pobre, o que é que eu explico pra ele?


Fonte: Opinião

Opinião: O sinteco gelado – Gregorio Duvivier

Durante muito tempo, deitei-me cedo, disse Proust, mas eu, que não sou Proust, e inclusive só li o livro até aí, que na verdade é a primeira frase, durante muito tempo não conseguia dormir cedo de jeito nenhum por causa do calor do Rio de Janeiro. O corpo todo suava e grudava no lençol e quando finalmente conseguia dormir, se por acaso abrisse os olhos no meio da noite, me deparava com o teto do quarto a um palmo do meu rosto. O céu, como temiam os gauleses, tinha desabado sobre a minha cabeça. Berrava até que alguém viesse me resgatar. Quando alguém me puxava pro lado, percebia que tinha acontecido a mesma coisa que acontecia todos os dias: depois de cair da cama, tinha rolado pra baixo dela.

O que ninguém entendia era por que não acordava quando caía, nem por que diabos rolava pra debaixo da cama. Acho que foi minha mãe quem matou a charada. Encostando o dedo no piso de taco sob a cama, descobriu que aquele pedaço de madeira intocada pelo sol era o ponto mais gelado da casa. Na falta de ar condicionado, a sabedoria sonâmbula me encaminhava pra uma Sibéria particular, o Sinteco Gelado, onde podia estatelar o rosto no chão e dormir com a bochecha fresquinha.

Meus pais ficaram com pena e passaram a deixar a gente dormir no quarto deles quando o calor apertava. Entrávamos no único cômodo da casa com ar condicionado como quem entra na Disney. Lembro de abraçar, com devoção, o aparelho marrom e barulhento, que chegava a sacudir quando ligado. Aquilo era uma espécie de taco gelado que ainda por cima produzia vento. Achávamos até o barulhinho gostoso. Hoje percebo que lembrava o motor de um Chevette. E, mesmo depois que desligavam o ar, de manhã, ainda podíamos apertar o travesseiro e saía um ventinho gelado que tinha ficado preso ali dentro.

E tinha o cheirinho. O quarto inteiro cheirava a frio –o mesmo cheiro da mala da minha tia que morava nos Estados Unidos. Ela abria a mala e mergulhávamos o rosto nas roupas, ainda geladinhas, cheirando a neve –imáginávamos.

No exato momento em que escrevo, suo em bicas. Nunca instalei o ar condicionado no escritório. Lembro de João Cabral: “O desábito de vencer/não cria o calo da vitória/não dá à vitória o fio cego/nem lhe cansa as molas nervosas”. Não é que goste de sentir calor, mas gosto demais de parar de sentir calor. Falando nisso, com licença. Preciso encostar minha bochecha no chão. Convido o leitor a fazer o mesmo. Oh, Proust. Sabe de nada, inocente.


Fonte: Opinião

Opinião: O ano só acaba depois do Carnaval – Gregorio Duvivier

Dia 27 de Dezembro – Bacana essa coisa de alugar a casa junto com pessoas desconhecidas. Calhou de só ter gente legal. Giovanna é professora de ioga, casada com Jeff, que é um arquiteto sustentável. Tem dois filhos lindos, veganos e sustentáveis. Bruce é chinês, ninguém sabe o que ele faz -mas parece um monge budista. Como ninguém se conhece, vai ser bom pra gente não beber muito -nem usar drogas. Parei com tudo. Esse Réveillon vai ser um detox. À noite chegou Maria, que é massoterapeuta -sustentável- e prometeu massagens em todos nós. Temos um prosecco, mas só vamos abrir no dia 31. Ah, parei de fumar.

Dia 28 – Todos fizemos ioga na beira da praia. Mais um dia sem fumar. E me juntei aos filhos de Jeff: agora sou vegano. Maria fez massagem em Jeff, que diz que saiu renovado. Descobri as delícias do queijo de castanhas. Quase igual ao queijo normal. (Acho que Bruce, o monge, está flertando com Maria, a massagista)

Dia 29 – Abrimos o prosecco hoje mesmo. Bruce, o monge, quem diria, apertou um baseado. Talvez ele não seja um monge budista. Como já tinha bebido, acabei fumando uns cigarros. E fiz brigadeiro. Giovanna liberou que os filhos provassem. Surto coletivo. Nunca foram tão felizes. Não tinha mais prosecco no mercadinho, compramos um espumante qualquer (dessa vez, uma dúzia).

Dia 30 – Acordei e encontrei Bruce cheirando lança-perfume no banheiro. Cada vez mais acho que ele não é monge. Acabamos, de manhã cedo, com a dúzia de espumante. Fumei um maço de Marlboro vermelho. No dia primeiro, paro de vez. Fomos no mercado e não tinha mais espumante. Compramos três engradados de Nova Schin. As crianças veganas descobriram as delícias do cachorro-quente. Comeram sete. No meio da madrugada fui ao banheiro e Maria estava fazendo massagem em Jeff. Ao que parece, é tântrica.

Dia 31 – Acordamos com Bruce botando um ácido em nossa boca. As crianças veganas acharam linguiças na dispensa e fizeram um churrasco. Giovanna estava entretida demais com a massagem de Maria para censurá-las. Bruce revelou que não era um monge chinês mas um traficante cearense -que estava fugindo da polícia. Acho que ele e Jeff estão ficando. Acabamos com os engradados de Schin.

Dia 1 – Acho que a minha cabeça vai explodir. Fiz brigadeiro e misturei com os restos de churrasco. Impossível parar qualquer coisa hoje. Preciso passar no mercado pra comprar mais cerveja. O ano só começa depois do carnaval.


Fonte: Opinião