A epidemia de infalibilidade nos Estados Unidos

:: Paul Krugman em 20/03/2017 14:15 ::

Duas semanas depois de o presidente Donald Trump bizarramente afirmar que o governo Obama havia ordenado escutas contra sua campanha presidencial, o secretário de imprensa da Casa Branca deu a entender que o GCHQ, o serviço de escuta eletrônica do governo britânico, havia sido o responsável pela escuta imaginária. As autoridades britânicas ficaram indignadas. Pouco depois, a imprensa britânica reportou que o governo Trump havia se desculpado. Leia mais (03/20/2017 – 13h53)

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EUA são governados por presidente que não aceita fatos objetivos

:: Paul Krugman em 13/03/2017 11:36 ::

A economia dos Estados Unidos criou 10,3 milhões de empregos durante o segundo mandato do presidente Barack Obama, ou cerca de 214 mil postos de trabalho por mês. Isso conduziu o índice oficial de desemprego do país a menos de 5%, e diversos indicadores sugeriam que, pelo final do ano passado, estávamos bem perto do pleno emprego. Mas Donald Trump insistia em que as boas notícias eram “falsas”, e que os Estados Unidos na realidade estavam sofrendo de desemprego em massa. Leia mais (03/13/2017 – 10h51)

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Os republicanos estão despreparados para governar os Estados Unidos

:: Paul Krugman em 06/03/2017 12:17 ::

De acordo com o site noticioso Politico.com, um confidente de Donald Trump diz que o homem do Gabinete Oval —ou, mais frequentemente, de Mar-a-Lago— está “cansado de ver todo mundo pensando que sua presidência é uma baderna”. Uma dica: sabe qual a melhor maneira de combater percepções de que você está cometendo erros e mais erros? Parar de cometê-los. Leia mais (03/06/2017 – 11h23)

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Indignação com o que acontece nos Estados Unidos é justificada e essencial

:: Paul Krugman em 27/02/2017 14:34 ::

Você está zangado por o movimento nacionalista branco ter tomado o controle do governo dos Estados Unidos? Se sim, pode ter certeza de que não está sozinho. As primeiras semanas do governo Trump foram marcadas por imensos protestos, multidões furiosas em reuniões com congressistas de diversos Estados, boicotes de consumidores a empresas vistas como aliadas de Trump. E o Partido Democrata, respondendo à pressão de sua base, adotou uma linha dura no que tange a cooperar com o novo regime. Leia mais (02/27/2017 – 13h41)

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Projeções econômicas de Trump são chutes otimistas

:: Paul Krugman em 21/02/2017 10:59 ::


De acordo com a imprensa, o governo Trump está baseando suas projeções orçamentárias na suposição de que a economia dos Estados Unidos crescerá muito rápido nos próximos 10 anos —de fato, quase duas vezes mais rápido do que instituições independentes como o Serviço Orçamentário do Congresso ou o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos (Fed), calculam. Até onde se pode dizer, não existe análise séria por trás desse otimismo; em lugar disso, o número foi simplesmente chutado para fazer com que as perspectivas fiscais pareçam melhores.
Leia mais (02/21/2017 – 10h24)


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Trump é assessorado por ignorantes para se fortalecer

:: Paul Krugman em 13/02/2017 12:48 ::


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Quando viajo à Ásia, muitas vezes sou recebido no aeroporto por alguém carregando um cartaz que diz “Mr. Paul”. Por quê? Em boa parte da Ásia, é costume grafar o sobrenome primeiro. Em seu país, o primeiro-ministro japonês é chamado de Abe Shinzo. E o engano é completamente perdoável quanto é cometido por um motorista de táxi que está no aeroporto para apanhar um professor universitário.
Leia mais (02/13/2017 – 11h41)


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Trump prioriza desmonte de reforma financeira que protege consumidores – Paul Krugman

Opinião – 06/02/2017 13:48

As pessoas continuam dizendo que Donald Trump é populista. Não creio que essa palavra signifique aquilo que elas acreditam significar.

Está bem, é verdade que o nosso suposto presidente —ei, se Trump pode usar essa expressão sobre um juiz que decidiu contra uma de suas ordens, podemos dizer o mesmo sobre ele— está canalizando o racismo e a intolerância de alguns norte-americanos comuns, e, ao fazê-lo, ataca a elite que leva a constituição a sério, e a respeita de forma literal.

Mas até agora suas políticas econômicas giram em torno de autorizar setores de negócios eticamente dúbios a trapacear e explorar as pessoas comuns.

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Ignorância de Trump ameaça sistema de comércio internacional – Paul Krugman

Opinião:

O regime Trump-Putin começou há menos de uma semana e já está ficando difícil acompanhar os desastres. Você ainda se lembra do faniquito do presidente sobre a presença embaraçosamente pequena de público em sua posse? Bem, isso já parece história antiga.

Mas quero dedicar minha atenção, só por um minuto, à história que dominou o noticiário na quinta-feira, antes que o tumulto quanto à proibição de entrada de refugiados se tornasse o assunto mais debatido.

Como você talvez se lembre –ou talvez não, já que as loucuras se sucedem muito rápido–, a Casa Branca pareceu inicialmente ter dito que imporia uma tarifa de 20% aos produtos importados do México, mas talvez estivesse falando de um plano de impostos, proposto pelos republicanos da Câmara, que não dizia coisa alguma nesse sentido; em seguida, a presidência anunciou que estava apenas mencionando uma ideia; e depois abandonou o assunto completamente, pelo menos por enquanto.

Em termos de maldade bruta, falar à toa sobre tarifas não se equipara a fechar a porta aos refugiados –e no dia que honra as vítimas do Holocausto, aliás. Mas a história sobre as tarifas ainda assim exemplifica o padrão que já estamos vendo nessa desordenada administração –um padrão de disfunção, ignorância, incompetência e confiança traída.

A história, como tantas outras coisas nas últimas semanas, parece ter começado com o ego inseguro do presidente Donald Trump: as pessoas estavam zombando dele porque, ao contrário do que prometeu em campanha, o México não pagará pela muralha inútil ao longo de sua fronteira. Por isso, o porta-voz do presidente, Sean Spicer, decidiu declarar que um imposto cobrado na fronteira sobre os produtos mexicanos bancaria, na prática, o custo da muralha. Pronto!

Como os economistas não demoraram a apontar, no entanto, tarifas não são pagas pelo exportador. Com algumas pequenas ressalvas, elas são basicamente pagas pelos compradores –ou seja, um imposto sobre os bens mexicanos importados seria um imposto sobre os consumidores dos Estados Unidos. E seriam eles, e não o México, que terminariam pagando pela muralha.

Ops. Mas esse não era o único problema. Os Estados Unidos são parte de um sistema de tratados –um sistema criado por nós– que determinam regras para a política de comércio internacional, e uma das principais regras é que não se pode elevar unilateralmente tarifas que tenham sido reduzidas em negociações anteriores.

Se os Estados Unidos simplesmente violarem essa regra, as consequências seriam severas. O risco não seria tanto de retaliação –ainda que este também exista–, mas de emulação: se tratarmos as regras com desdém, todo mundo mais fará o mesmo.

Todo o sistema de comércio internacional começaria a se desmantelar, com efeitos profundamente destrutivos em toda parte, o que inclui, e muito, o setor industrial dos Estados Unidos.

Assim, será que a Casa Branca planeja mesmo seguir esse caminho? Ao se concentrar nos produtos importados do México, Spicer causou essa impressão; mas também disse que estava falando sobre uma “reforma tributária abrangente como forma de tributar importações de países com os quais tenhamos um deficit comercial”.

Isso parecia ser referência a uma proposta de reformar os impostos pagos pelas empresas, que incluiria “impostos ajustáveis de importação”.

Mas eis o problema: uma reforma como essa não teria todos os efeitos que ele estava sugerindo. Ela não tomaria como alvo os países com os quais temos deficit, e muito menos o México; seria aplicada a todo o comércio internacional. E não seria de fato um imposto sobre a importação.

É justo ressaltar que esse é um ponto que a maioria das pessoas não costuma entender. Muita gente que deveria saber melhor acredita que impostos sobre valor adicionado, cobrados por muitos países, desencorajam as importações e subsidiam as exportações. Spicer ecoou essa ideia incorreta. Na verdade, porém, os impostos por valor adicionado são basicamente impostos nacionais sobre as vendas, que não encorajam e nem desencorajam importações. (Sim, os produtos importados pagam o imposto, mas os produtos nacionais também o fazem.)

E a mudança proposta nos impostos das empresas, embora diferente do imposto sobre valor adicionado em alguns aspectos, teria efeito igualmente neutro sobre o comércio internacional. O que isso significa, especialmente, é que a mudança nada faria para que o México pague pela muralha.

Parte desse assunto é um tanto técnica –em meu blog, ofereço detalhes adicionais. Mas o governo dos Estados Unidos não deveria ter certeza sobre o que fala antes de fazer o que aparenta ser uma declaração de guerra comercial?

Vamos resumir, portanto: o secretário de imprensa da Casa Branca criou uma crise diplomática ao tentar proteger o presidente de zombarias causadas por suas bazófias insensatas. No processo, demonstrou que as pessoas que estão no poder nada entendem sobre política econômica. Em seguida, ele tentou recuar e mudar de assunto.

Tudo isso deveria ser colocado no contexto mais amplo, de uma rápida perda de credibilidade pelos Estados Unidos.

Nosso governo nem sempre fez a coisa certa. Mas manteve suas promessas, a nações e indivíduos igualmente.

Agora, tudo isso está em questão. Todo mundo, de pequenos países que acreditavam estar protegidos contra a Rússia, a empreendedores mexicanos que acreditavam ter acesso garantido aos nossos mercados e intérpretes iraquianos que achavam que seus serviços aos Estados Unidos significavam uma garantia de refúgio, precisa se preocupar com a possibilidade de levar um calote, como costuma acontecer aos empreiteiros que trabalham para os hotéis Trump.

Essa é uma perda muito sério. E provavelmente irreversível.

Tradução de PAULO MIGLIACCI


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Trump fez grandes promessas durante campanha e risco de desilusão é alto – Paul Krugman

Opinião:

Se os Estados Unidos vivessem sob um sistema parlamentarista, Donald Trump —que passou seu primeiro dia como presidente tendo um faniquito por causa de reportagens que apontaram, com precisão, o baixo comparecimento de público à sua posse— já estaria enfrentando um voto de desconfiança. Como o nosso sistema é outro, teremos de descobrir como sobreviver a quatro anos disso.

E como é que ele vai reagir a números decepcionantes sobre coisas que realmente importam?

Em seu lúrido e horrendo discurso de posse, Trump retratou um país em péssima situação —”a carnificina norte-americana”. O país verdadeiro não se parece com isso em nada. Há muitos problemas, mas as coisas poderiam estar piores. Na verdade, é provável que elas de fato piorem. E como é que um homem incapaz de enfrentar até o mesmo o mais modesto abalo de seu ego lidará com isso?

Vamos falar sobre as más notícias previsíveis.

Primeiro, a economia. Quem ouve Trump imaginaria que os Estados Unidos estão em meio a uma depressão em larga escala, com “fábricas enferrujadas espalhadas como lápides por todo panorama de nosso país”. O emprego na indústria de fato caiu, de 2000 para cá, mas o nível de emprego geral subiu, e o desemprego é baixo pelos padrões históricos.

E não é só um indicador que parece bom. Os salários em alta e a ascensão no número de norte-americanos que se sentem confiantes o bastante quanto à economia para pedirem demissão de seus empregos voluntariamente sugerem que a economia está próxima do pleno emprego.

O que isso quer dizer é que o desemprego dificilmente cairá muito, de seu patamar atual, e portanto, mesmo com boas políticas econômicas e boa sorte, a criação de empregos será muito mais lenta do que nos anos Obama. E porque coisas ruins acontecem, existe uma forte probabilidade de que o desemprego seja mais alto dentro de quatro anos do que é hoje.

Oh, e os deficit orçamentários que Trump expandirá provavelmente ampliarão o deficit comercial, e com isso é provável que o emprego na indústria caia, em lugar de subir.

Uma segunda frente quanto à qual as coisas certamente vão piorar é a saúde. O plano de reforma da saúde de Obama (Obamacare) causou uma forte redução na porcentagem de norte-americanos desprovidos de planos de saúde, para o mais baixo total histórico.

Sua revogação causaria uma disparada imediata no número de pessoas desprovidas de cobertura —de acordo com estimativas do Serviço Orçamentário do Congresso, 18 milhões de pessoas perderiam sua cobertura de saúde no primeiro ano da revogação, e o total posteriormente poderia atingir 30 milhões de norte-americanos.

E, não, os republicanos que passaram sete anos sem propor uma alternativa real para substituição do plano não desenvolverão uma nova proposta nas próximas semanas, se é que a desenvolverão um dia.

Quanto a uma terceira frente, o crime, as tendências futuras são incertas. A visão de Trump, de áreas urbanas devastadas por “crimes, e gangues e drogas” é só uma fantasia distópica. Os crimes violentos na verdade estão em profunda queda, a despeito do alarde feito recentemente quanto à alta no número de homicídios em algumas grandes cidades.

Imagino que o crime poderia cair ainda mais, mas também pode subir. O que sabemos é que o governo Trump não será capaz de pacificar as zonas de guerra urbanas dos Estados Unidos, porque elas não existem.

Assim, como Trump lidará com as más notícias sobre alta no desemprego, queda severa na cobertura de saúde e pouca, se alguma, redução no crime? A resposta é óbvia: ele negará a realidade, da maneira que sempre faz quando ela ameaça seu narcisismo. Mas será que seus eleitores o acompanharão nessa fantasia?

Pode ser que sim. Afinal, eles bloquearam as boas notícias dos anos Obama. Dois terços dos eleitores de Trump acreditam, falsamente, que o desemprego subiu nos anos Obama. (E 75% deles acreditam que George Soros paga pessoas para que se manifestem contra Trump.)

Apenas 17% das pessoas que se declaram republicanas estão cientes de que o número de norte-americanos desprovidos de planos de saúde registra uma baixa histórica. A maioria das pessoas achava que o crime estava em alta mesmo quando estava caindo. E por isso pode ser que elas bloqueiem as más notícias dos anos Trump.

Mas é provável que isso não seja assim tão fácil. Para começar, as pessoas tendem a atribuir melhoras em sua situação pessoal aos seus próprios esforços; com certeza, muitos dos eleitores que conseguiram empregos nos últimos oito anos acreditam tê-lo feito apesar, e não por causa, das políticas de Obama. Será que vão atribuir a culpa por empregos e planos de saúde perdidos a elas mesmas, e não a Trump? Improvável.

Além disso, Trump fez grandes promessas durante a campanha, e por isso o risco de desilusão é especialmente alto.

Será que ele vai responder às más notícias aceitando a responsabilidade e tentando se sair melhor? Ou vai renunciar á sua fortuna e entrar para um mosteiro? São duas soluções com igual probabilidade de acontecer.
Não, o egomaníaco em chefe, com toda a sua insegurança, certamente tentará negar as verdades desconfortáveis, e atacará a mídia por reportá-las. E —isso é o que mais me preocupa— é bem provável que empregue o seu poder para fuzilar os mensageiros.

Falando sério, como é que vocês acham que um homem que comparou a CIA (Agência Central de Inteligência) aos nazistas vai reagir quando o Serviço de Estatísticas do Trabalho reportar uma primeira alta no desemprego ou queda no emprego industrial? O que ele fará quando os Centros de Controle de Doenças ou o Serviço de Recenseamento reportarem uma alta no número de norte-americanos desprovidos de cobertura de saúde?

Você talvez tenha imaginado que o faniquito da semana passada foi ruim. Mas faniquitos muito, muito piores estão por vir.

Tradução de PAULO MIGLIACCI


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Opinião: Declarar Trump presidente ilegítimo é ato de patriotismo – Paul Krugman

Quando jovem, o deputado federal John Lewis, que representa a maior parte da cidade de Atlanta, colocou sua vida em risco na busca da justiça. Líder crucial do movimento pelos direitos civis, ele sofreu múltiplas agressões.

Na mais famosa dessas ocasiões, Lewis estava liderando a manifestação que veio a ser conhecida como Bloody Sunday e teve seu crânio fraturado em um ataque por um grupo de policiais estaduais. A indignação pública quanto à violência daquele dia ajudou na aprovação da Lei dos Direitos Eleitorais. Agora, Lewis diz que não comparecerá à posse de Donald Trump, que ele considera como presidente ilegítimo.

Como seria de esperar, a declaração provocou reação histérica e caluniosa do presidente eleito —que, é claro, começou sua carreira política ao questionar, repetida e mentirosamente, o direito do presidente Barack Obama a ocupar o posto. Mas Trump —que jamais sacrificou coisa alguma ou assumiu riscos para ajudar os outros— parece sentir hostilidade especial para com os verdadeiros heróis. Talvez ele prefira manifestantes que não terminam espancados?

Mas não vamos falar sobre os desvarios de Trump. Em lugar disso, perguntemos se Lewis tinha o direito de dizer o que disse.É aceitável, em termos morais e políticos, declarar ilegítimo o homem que está a ponto de se mudar para a Casa Branca?

Sim, é. Na verdade, é um ato de patriotismo.

Sob qualquer padrão sensato, a eleição de 2016 foi profundamente questionável. Não se trata apenas dos efeitos da intervenção russa em favor de Trump. Hillary Clinton quase certamente teria vencido se o FBI (Polícia Federal americana) não tivesse difundido a falsa impressão de que tinha em seu poder novas informações negativas sobre ela, apenas alguns dias antes da votação. Foi um delito de conduta grotesco, um ataque à legitimidade, especialmente se comparado à recusa da agência em discutir a conexão russa.

Será que as coisas vão ainda além disso? A campanha de Trump coordenou ativamente as suas atividades com uma potência estrangeira? Será que uma cabala no FBI deliberadamente retardou as investigações sobre essa possibilidade? As histórias lúridas sobre as aventuras de Trump em Moscou serão verdade? Não sabemos, ainda que a repulsiva subserviência de Trump a Vladimir Putin torne difícil descartar essas acusações.

Mas mesmo se levarmos em conta apenas aquilo que sabemos ao certo, nenhum presidente eleito anterior teve menos direito ao título, nos Estados Unidos. Assim, por que não questionaríamos a legitimidade dele?
E falar com franqueza sobre a maneira pela qual Trump chegou ao poder não só cumpre o dever de dizer a verdade mas pode ajudar a limitar esse poder.

Se ao menos o próximo comandante em chefe demonstrasse pelo menos um traço de humildade, de compreensão de que seu dever perante a nação requer algum respeito à forte maioria de norte-americanos que votaram contra ele a despeito da interferência russa e da desinformação do FBI… Mas ele não o faz e nem fará.

Em lugar disso, está saindo ao ataque e ameaçando toda e qualquer pessoa que o critique, e se recusa até a admitir que foi derrotado no voto popular. E está se cercando de pessoas que compartilham de seu desdém por tudo que há de melhor nos Estados Unidos. O que estamos contemplando, muito claramente, é uma caquistocracia norte-americana —o domínio pelos piores.

O que pode ajudar a restringir esse domínio? Bem, o Congresso ainda tem muito poder para cercear o presidente. E seria agradável imaginar que existam legisladores dotados de espírito público em número suficiente para desempenhar esse papel. Em particular, basta que existam três senadores republicanos dotados de consciência e muito poderia ser feito para proteger os valores norte-americanos.

Mas seria muito mais provável que o Congresso decidisse resistir a um Executivo autoritário e descontrolado se os seus membros perceberem que pagarão o preço político caso facilitem as ações dele.

O que isso significa é que Trump não deve ser tratado com deferência pessoal simplesmente por conta da posição que conseguiu tomar. Não devemos conceder a ele o uso da Casa Branca como palanque para intimidação. Não devemos autorizá-lo a se revestir da majestade do posto. Tendo em vista o que sabemos sobre o caráter do sujeito, fica bem claro que lhe conferir respeito que ele não merece só o levará a se comportar mal.

E lembrar às pessoas sobre a maneira pela qual ele chegou ao posto é uma ferramenta importante para impedir que receba respeito que não merece. Lembre-se: dizer que a eleição foi questionável não é calúnia ou uma insana teoria da conspiração: é simplesmente a verdade.

É certo que qualquer pessoa que questione a legitimidade de Trump terá seu patriotismo impugnado – porque é isso que as pessoas da direita sempre dizem quando alguém critica um presidente republicano. (Estranhamente, eles nada dizem sobre ataques a presidentes democratas.) Mas patriotismo significa defender os valores de um país, e não prometer lealdade pessoal ao Querido Líder.

Não, contestar a legitimidade de resultados eleitorais com os quais discordamos não deve se tornar um hábito. Mas o caso atual é excepcional, e precisa ser tratado dessa maneira.

Assim, devemos ser gratos a John Lewis por ter tido a coragem de se pronunciar. Foi a coisa patriótica e heroica a fazer. E os Estados Unidos precisam de heroísmo dessa espécie, agora mais que nunca.

Tradução de PAULO MIGLIACCI


Fonte: Opinião